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Pai tinha relação difícil desde a infância do filho

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A principal lembrança preservada por amigos e familiares do jovem Guilherme Silva Neto, de 20 anos, assassinado pelo pai na tarde do dia 15, no Setor Aeroporto, em Goiânia, é o perfil sonhador, cheio de planos, engajado política e socialmente, e a vontade de querer mudar a realidade. Os anseios do rapaz eram o que o tornavam resiliente e forte o bastante para superar as dificuldades vividas dentro da própria casa, marcadas por brigas, restrições, horários e exigências impostas desde a infância pelo pai, o engenheiro Alexandre José Silva Neto, de 60 anos, que se matou após tirar a vida do filho.

Não raro, quase que diariamente, amigos que conviviam com o estudante universitário, que cursava Matemática na Universidade Federal de Goiás (UFG), desde o início deste ano, contam que Guilherme chegava sempre irritado e nervoso, por causa das discussões com o pai. A tia, a securitária Rosania de Moura Rosa, vizinha de parede da família, nunca deixou de pensar no que poderia fazer pelo sobrinho. “Eu morria de dó, porque eu tentava ajudar e não conseguia. Minha irmã tinha medo de que algo pudesse acontecer comigo. Eu não tive um sobrinho. Eu nunca pude sair com o meu sobrinho”, lamenta.

As brigas começaram a se acirrar quando Guilherme completou 18 anos. A maioridade e a vontade de fazer o que queria, sem ter de seguir à risca as regras impostas pelo pai, superaram a resistência muda, até então. O embate ideológico e comportamental não era segredo entre os mais próximos. Amigo do rapaz desde 2012, quando começaram a estudar juntos no Colégio Prevest, o estudante de Filosofia Gabriel Soares Bueno, de 21 anos, relata que Guilherme começou a participar de protestos em Goiânia, em 2013, com a onda de manifestações por causa do aumento da tarifa do ônibus. “Ele estava em todos”, conta.

O universitário se definia como anarquista. A foto de perfil em sua página do Facebook traz a frase: “Não reconheço governo nenhum”. Além de discordar das ideias do filho, o pai tinha medo, segundo a tia, de que ele pudesse ser preso ou ser alvo de violência cometida pela polícia. “Engraçado isso, porque ele mesmo acabou matando o filho, né?” A última briga, e que culminou na tragédia, teria sido motivada por causa do envolvimento de Guilherme nas ocupações de unidades da UFG. Ele integrou, desde o início, o grupo que estava alojado na reitoria da Universidade, de onde saiu na segunda-feira.

O menino franzino, desajeitado e cheio de apelidos era alegre, apesar de tudo. O amigo Gabriel fala que ele tinha uma alegria natural, de risada engraçada e facilmente reconhecida pelos mais próximos. A voz era rasgada, “de cantor de country”, brinca ele. A amizade entre os dois começou por causa do gosto musical. Guilherme sempre ia para a escola com camisetas de banda, como Judas Priest, Motörhead e Metallica. Ele fazia questão de burlar até mesmo a regra do uniforme, sempre o colocando, assim que passava pelo portão do colégio e para não levar bronca dos funcionários, por baixo das tais camisetas.

A inteligência era uma característica marcante do jovem, sempre com intervenções pontuais nas aulas de Filosofia, Sociologia e com facilidade natural para os números. “A grande dificuldade dele era de se socializar por causa do jeito diferente”, relata Gabriel. Outro amigo, o também estudante Ricardo Borges, confirma isso. A tal falta de jeito involuntária para as coisas rendeu-lhe até um apelido: “Sem Noção”. As chacotas e as piadas dos colegas, no entanto, não o abalavam. Ele ria e queria apenas entender aquilo que era dele, da personalidade dele.

Na semana passada, Gabriel, em conversa com Guilherme na ocupação da reitoria da UFG, prometeu que iria ajudá-lo a melhorar esse lado. “Cara, eu não entendo o porquê disso”, falou. E o amigo, neste que foi um dos últimos contatos, afirmou: “Um dia, você vai superar isso”.

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