Policiais militares de Goiás são suspeitos de participar de um grupo de extermínio com atuação em Caldas Novas, Santo Antônio do Descoberto e Alto Paraíso. A organização estaria envolvida com desaparecimentos, ocultações de cadáver e confrontos forjados, além de corrupção. Ontem (18), três praças e dois oficiais foram alvos de mandados de prisão temporária por 30 dias. Também foram cumpridos seis mandados de busca e apreensão. A operação, batizada de Circo da Morte, é uma força-tarefa entre a Polícia Federal (PF) e o Grupo de Controle Externo da Atividade Policial (Gceap), do Ministério Público do Estado de Goiás (MP-GO).
O principal suspeito investigado é o tenente coronel Carlos Eduardo Belele, de 56 anos, conhecido como Belelli, que teria chefiado o grupo criminoso inicialmente na região da Chapada dos Veadeiros, quando era comandante do 14º CIPM. Mais tarde ele teria atuado em Caldas Novas, no 26º Batalhão.
Entre os casos investigados está o desaparecimento, homicídio e ocultação de cadáver do casal de namorados Dallyla Fernanda Martins, de 21 anos e Darley Carvalho da Silva, de 31. Eles foram sequestrados, em Santo Antônio do Descoberto, por homens encapuzados que se diziam policiais na noite do dia 15 de março de 2017.
O corpo de Darley foi encontrado na tarde do dia seguinte em uma chácara em Silvânia. A vítima estava apenas de cueca, sem identificação, com uma marca de tiro no rosto. O laudo cadavérico indica que ele foi morto na madrugada. Dallyla continua desaparecida.
Conforme as investigações, Belelli e outros policiais de seu batalhão estavam em Santo Antônio, que fica cerca de 300 km de Caldas Novas, justamente no dia em que o casal foi raptado. Ele e sua equipe passaram um tempo na cidade pedindo informações para a delegacia local sobre Darley, que respondia processos por tráfico, porte de arma e homicídio. Sete dias antes, o tenente coronel havia matado o irmão de Darley, em uma suposta troca de tiros, que também é questionada na investigação, na zona rural de Caldas Novas.
A descrição dos três veículos dos sequestradores, feita por testemunhas, são as mesmas dos utilizados por Belelli e seu grupo. Um deles era uma caminhonete com faróis na parte superior. Também foram coletadas informações através de interceptações telefônicas e estações de rádio base, que são torres que fazem conexões entre telefones celulares.
Em um vídeo publicado na internet, a advogada de Belelli e de três dos policiais presos, Lorena Paixão, diz que as prisões foram desnecessárias, já que os suspeitos estariam sempre dispostos a colaborar com as investigações. Ela defende que o casal era criminoso e poderia ter sido sequestrado e morto por outros criminosos. “Não havia necessidade de toda essa operação cinematográfica”, afirma.
A advogada Rosângela Chaves, que defende o preso temporário tenente Bruno, diz ter considerado a prisão “totalmente desnecessária”, já que seu cliente havia dado depoimento sobre o assunto em duas ocasiões. Ela defende que Bruno teria trabalhado apenas 30 dias sob o comando de Belelli, não esteve em Santo Antônio no dia do sequestro e é inocente das acusações.
Por nota, a PM-GO informou que as investigações estão sendo acompanhadas pela Corregedoria e que designou oficiais, que atuaram no cumprimento dos mandados de prisão.
Operação vazou para oficial que foi preso
O tenente coronel Carlos Eduardo Belele, de 56 anos, o Belelli, ficou sabendo com antecedência que seria alvo de um mandado de prisão por compor um suposto grupo de extermínio. Ele chegou a gravar um vídeo com sua defesa, que foi divulgado em sua página oficial na internet, depois de ter sido preso na manhã de ontem (18).
Dias antes de ser preso, Belelli teria enviado um áudio para a sua advogada, Lorena Paixão, afirmando que sabia que havia um mandado contra ele, que teria sido alertado pela juíza Vaneska da Silva Baruki, da 1ª Vara Criminal da Comarca de Caldas Novas, responsável por emitir o “cumpra-se” de um mandado de busca e apreensão contra o tenente-coronel. A própria advogada teria contado a versão para Vaneska, durante uma audiência.
Por nota, Vaneska disse que realmente foi informada sobre o áudio pela advogada, mas que a versão de ter informado o policial nunca aconteceu. “Deixo claro que se trata de uma mentira e que jamais houve vazamento de informações por essa Magistrada ou qualquer pessoa do Judiciário Goiano”, diz ela na nota, referendada pela Associação de Magistrados. Além disso, ela garante que nunca teve acesso ao conteúdo do processo.
A juíza ainda afirma que assim que tomou conhecimento do áudio, repassou a gravação para o promotor de Justiça de Caldas Novas, Pedro Eugênio Beltrame Benatti, e pediu a abertura de um inquérito na Polícia Civil contra Belelli pela prática de calúnia.
Belelli trabalhou como assessor de segurança no Tribunal de Justiça do Estado de Goiás (TJ-GO) nos anos de 2009 e 2010, durante a gestão do então desembargador Paulo Maria Teles, que ainda é próximo do oficial. Questionado se faria a defesa do tenente coronel, o ex-magistrado disse que “até poderia”, mas que estava em viagem. Ele afirma que não sabia da operação.
“Quem perdoa bandido é Deus, eu só promovo o encontro”, diz Belelli
Popular nas redes sociais, o tenente coronel Carlos Eduardo Belele, de 56 anos, o Belelli, abastece diariamente suas páginas no Youtube e no Facebook, onde conta com milhares de seguidores. De perfil linha dura, ele foi candidato a deputado estadual pelo Partido da República, mas ficou como segundo suplente. Foi pelas redes sociais que ele e sua advogada se defenderam das suspeitas de ele integrar um grupo de extermínio, contando com o apoio de fãs.
Em uma das fotomontagens que costuma publicar com seu rosto e fases de efeito, diz que “quem perdoa bandido é Deus, eu só promovo o encontro”. Também há outras mais bem humoradas, com seu rosto no lugar dos personagens Rambo e Don Vito Corleone, protagonista do filme O Poderoso Chefão. Quando era comandante do batalhão de Caldas Novas, suas operações eram noticiadas em um canal próprio na internet, com jornalistas contratados por uma assessoria da PM local.
No vídeo gravado antes da prisão, em que se defende, ataca os parentes do casal de Santo Antônio do Descoberto, que ele é suspeito de ter matado, enfatizando que seriam de uma “família de bandidos”.
Reconhece que esteve na cidade no dia do crime para investigar o casal e que o corpo de uma das vítimas foi encontrado no trajeto que fez quando deixava a cidade, mas ressalta que não está assumindo a culpa e que é inocente.

Da Redação com OP










































