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opinião

A menina que viu o juízo final

Os mortos começavam a despertar, a se mover lentamente, esticando pernas e braços, e abrindo os olhos nos quais ia surgindo um inominável pavor, à medida que a memória lhes voltava e iam compreendendo que chegara o tão temido dia
A menina que viu o juízo final. Foto: Reprodução

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No culto, o pastor falou sobre o Juízo Final, quando os mortos ressuscitariam para serem julgados.

À noite, não sei se foi num sonho ou apenas na minha imaginação infantil, que me vi num largo vale ocupado por milhares de galpões, onde os mortos aguardavam o Juízo Final.

Apesar do medo que sentia, entrei em um que estava com a porta aberta. Havia prateleiras ao longo das paredes, onde os mortos permaneciam deitados. Estavam estranhamente achatados – não sei por quê –, e havia no ambiente um silêncio tumultuado, como se seus pensamentos gritassem e seus gemidos inaudíveis ocupassem todo o espaço.

Era como se tudo estivesse mergulhado em terrível expectativa.

Então, chegava o temido dia do Juízo Final. Os mortos começavam a despertar, a se mover lentamente, esticando pernas e braços, e abrindo os olhos nos quais ia surgindo um inominável pavor, à medida que a memória lhes voltava e iam compreendendo que chegara o tão temido dia.

Aquelas almas angustiadas desciam das prateleiras e se juntavam à multidão que caminhava em direção ao platô, onde se encontrava Deus, em seu trono reluzente, lançando faíscas em todas as direções.

Mesmo profundamente assustada, eu procurava imaginar como seria a expressão do rosto de Deus. Haveria em seus olhos ao menos um resquício de piedade, de amor? Mas não consegui olhá-lo, porque, ao me aproximar, comecei a ouvir, procedente das profundezas da Terra, o crepitar do fogo no Inferno, pronto para receber seus inquilinos. Apavorada, voltei para trás e, de longe, assisti ao início do impiedoso julgamento.

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Então vi como Deus, sem dó nem piedade, começou o julgamento. Alguns felizardos Ele enviava para o Céu, enquanto a maioria era mandada para o Inferno, onde ficariam queimando entre labaredas e as risadas dos que “cuidariam” deles pela eternidade afora.

Era uma imagem por demais perturbadora, e eu me perguntava: POR QUÊ?

Por que Deus não os deixava mortos para sempre? Que sentimentos horríveis animavam o Criador? Que ser terrível era aquele que criava as pessoas com tendências e inclinações para o mal, cheias de paixões de toda natureza? Será que Ele fez isso para poder satisfazer seus instintos perversos, locupletar-se assistindo suas próprias criaturas, como se fosse num tubo de ensaio, a se estorcerem nos horrores do Inferno e, em seguida, voltar para o Paraíso a fim de receber os louvores e bajulações dos seus habitantes?

NÃO!!! – gritava minha alma. NÃO!!!

E, com esse grito, todo aquele horror desapareceu. Felizmente!

Mas, quando meu pai – que fora pastor da Igreja Adventista na Finlândia – nas reuniões que fazia conosco falava sobre Jesus, cujo único mandamento havia sido: “Ama a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a ti mesmo”, eu me perguntava: como? Era impossível amar um ser como aquele. Ter-lhe medo, sim – e certamente era por isso que se falava sobre “temor a Deus”, “fulano é temente a Deus”, como se temê-Lo representasse o caminho da salvação, a chave que abriria as portas do Paraíso depois da morte.

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E o Paraíso? Também me perguntava. Como seria passar a eternidade adorando um Deus como aquele?

Mas não havia escolha: ou Inferno ou Paraíso.

Felizmente, tais ideias não me perturbaram em demasia, porque, lá no fundo, eu sabia que a Verdade era outra – e sentia que um dia iria conhecê-la, e que ela seria maravilhosa.

OBS. Essa Verdade foi expressa no livro O que acontece depois da Vida, publicado apenas na Finlândia, mas que se encontra disponível em português, no formato digital e para download gratuito, no site: https://umtoquedeesperanca.com

Saara Nousiainen

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