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Bloqueios do Governo Federal na área da educação reduzem pesquisas em Goiás

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Mais 78 pesquisadores deixarão de contar com o apoio financeiro da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) em Goiás após o novo bloqueio de bolsas de pós-graduação ocorrido no Brasil. O número corresponde ao total de benefícios congelados no Estado no terceiro corte realizado pela Capes neste ano, que subtraiu 5.613 deles em todo o País. Ao todo, já foram extintas 11.811 bolsas.

Assim, a Universidade Federal de Goiás (UFG), que concentra a maior parte dos programas de pós-graduação goianos, chega a 305 bolsas a menos em 2019, 22% daquelas que tinha em janeiro. Instituições como a Universidade Estadual de Goiás (UEG) e a Pontifícia Universidade Católica de Goiás (PUC Goiás) também foram afetadas.

Contrariando o discurso da Capes, fundação que é vinculada ao Ministério da Educação (MEC) e classifica as bolsas congeladas como “ociosas”, grande parte dos benefícios tinha destino certo, como explica o pró-reitor de Pós-Graduação da UFG, Laerte Guimarães Ferreira. Com o término de um ciclo de mestrandos ou doutorandos, quando estes defendem suas dissertações ou teses e alcançam o grau acadêmico pretendido, outros ingressam nos programas e a bolsa que os beneficiava fica disponível para outro aluno. Na prática, elas não serão renovadas.

O corte anunciado no dia 2 deste mês afeta bolsas que ficariam disponíveis para novos pós-graduandos até o fim deste ano. Assim, nenhum novo pesquisador será financiado. “Nós vamos perder ainda mais bolsas”, lamenta o pró-reitor.

O argumento apresentado é o da economia de R$ 37,8 milhões em 2019. Nos próximos quatro anos, período de vida útil das 5.613 bolsas, o valor deve chegar a R$ 544 milhões.

 

Impacto

Os bloqueios devem ser sentidos fortemente na produção científica e acadêmica das universidades. A diminuição de pessoal para a produção de pesquisas – ou seja, alunos – é apontada por coordenadores como uma grande preocupação, uma vez que a retração na quantidade de concorrentes às vagas ofertadas já foi sentida. Na UFG, em setembro, foram suspensas 19 bolsas de mestrado, nove de doutorado e uma de pós-doutorado. “O impacto na pesquisa é muito grande. Temos que lembrar que a pesquisa, no Brasil e no mundo, está muito vinculada às universidades e, em especial, à pós-graduação. Se retiro as bolsas, como os alunos vão se manter?”, questiona Ferreira.

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Com um valor individual de R$ 1,5 mil, as bolsas de mestrado são, não raro, determinantes para a permanência de alunos na pós-graduação. É o caso do mestrando Kássio Samay, de 24 anos, que estuda no Programa de Pós-Graduação em Geografia da UFG. Graduado em Ciências Ambientais pela mesma instituição, ele aguardava, desde o início do ano, que uma bolsa ficasse disponível. Quando o benefício foi liberado, se inscreveu, mas, durante o período de realização dos trâmites burocráticos, ele foi retido pela Capes. “Fico um pouco desanimado com tudo o que está acontecendo, mas tenho que ter esperança”.

Conforme Samay, trabalhar durante a pós-graduação é difícil. “Procurei trabalho em um shopping, mas não me contrataram porque queriam alguém com mais disponibilidade de tempo, de segunda a segunda”.

Ele pensou em desistir do mestrado, mas persistiu no intuito de concluir sua pesquisa na área de Geoprocessamento a fim de encontrar áreas de vulnerabilidade natural para erosões. “Minha família não é rica. Vou tentando segurar as pontas”.

No mesmo programa, mas no doutorado, a piauiense Janáira Marques Leal, de 25 anos, se viu diante de um dilema pela ausência de bolsas e teve de retornar para sua terra natal, da qual havia saído motivada pelo conceito existente na instituição de Goiás e nas possibilidades de financiamento.

Para não abandonar a pós-graduação, ela cursa disciplinas em uma universidade em Teresina (PI), que pretende aproveitar depois. “No próximo semestre, não sei como será. Se eu voltar para Goiânia e permanecer sem bolsa, talvez eu tenha que desistir do doutorado”, lamenta ela, que realiza pesquisas com análises de vulnerabilidade à perda de solos e fragilidade ambiental.

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“Além do desânimo, há bolsistas desesperados”

Ao fim do primeiro semestre, os programas de pós-graduação costumam publicar os editais que admitirão estudantes para o ano seguinte. Em alguns deles, as inscrições vieram acompanhadas pelo reflexo das medidas adotadas pelo governo federal na Educação. No Programa de Pós-Graduação em Química (PPGQ), por exemplo, a redução no número de concorrentes chamou a atenção. Coordenador do PPGQ, o professor Felipe Terra Martins conta que mesmo com processo de inscrição facilitado, realizado pela primeira vez de forma online, o número de inscrições caiu. Como consequência, diminuiu também o de admitidos: o de mestrandos passou de 11 no primeiro semestre de 2019 para seis, e o de doutorandos, de 11 para três. “Não tenho dúvidas de que a diminuição ocorreu em função do anúncio de cortes”, afirma.

Segundo Martins, há também alunos que consideram a possibilidade de abandono por não ter mais uma fonte de renda – o acúmulo da bolsa com atividades remuneradas é permitido em casos restritos. “Além do desânimo, há bolsistas desesperados”, conta.

Com menos estudantes, há também menos pesquisadores, de acordo com o professor, o que coloca em risco investimentos de milhões de reais. “Temos um equipamento que custa R$ 6 milhões e corre risco de virar sucata. Ele é capaz de distinguir moléculas com uma precisão altíssima e pode, por exemplo, saber a composição de uma rocha para saber se ela é válida de ser explorada”, explica. “Um equipamento desse porte precisa de fomento para a sua manutenção. Mas a pesquisa só vai receber investimento se tiver resultado. Para ter resultado, precisa ter aluno”.

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