Instituído pela Lei nº 11.723/2.008, o Dia Nacional do Controle das Infecções Hospitalares foi criado com o intuito de conscientizar autoridades sanitárias, diretores de hospitais e trabalhadores da saúde em geral sobre a importância do controle das infecções hospitalares. A lei que instituiu a data também autorizou que o Ministério da Saúde e os serviços de saúde, em especial os hospitais, desenvolvam campanhas de comunicação e ações educativas que promovam a conscientização pública sobre o problema representado pelas infecções hospitalares e a necessidade de seu controle.
Segundo a Biblioteca Virtual em Saúde do Ministério da Saúde, infecções hospitalares eram consideradas aquelas adquiridas após a admissão do paciente na unidade hospitalar, podendo se manifestar durante a internação ou após a alta. Com a incorporação de novas terapias e tecnologias que possibilitaram que tratamentos que, anteriormente, só podiam ser feitos em ambiente hospitalar, fossem administrados em regime domiciliar, em hospitais-dia e clínicas especializadas, o conceito de infecção hospitalar foi ampliado e passou a incorporar as infecções relacionadas à assistência à saúde (Iras).
Em Goiás, hospitais públicos e privados desenvolvem programas, em cumprimento à Portaria do Ministério da Saúde que estabelece as diretrizes e normas para o controle de infecção hospitalar no país, e as competências dos diferentes níveis de governo e dos serviços de saúde (Portaria MS/GM nº 2.616/1.998).
A portaria foi editada em atendimento à lei nº 9431, de janeiro de 1997, que dispõe sobre a obrigatoriedade da manutenção pelos hospitais do país, de Programa de Controle de Infecções Hospitalares.
O Portal da Alego ouviu gestores de uma unidade pública e uma privada para saber como as ações de prevenção à infecção hospitalar são desenvolvidos nesses hospitais.
No Hospital de Urgências de Goiás Dr. Valdemiro Cruz (Hugo), uma das maiores unidades de urgência e emergência da rede pública no estado, a atuação da Comissão de Controle de Infecção Hospitalar (CCIH) é operacionalizada pelo Serviço de Controle de Infecção Relacionada à Assistência à Saúde (SCIRAS), órgão técnico, consultivo e normativo vinculado diretamente à Gerência de Práticas, Qualidade e Segurança da unidade.
Segundo o médico e gerente de práticas, qualidade e segurança do Hugo, Flávio Araújo Borges, a estrutura da CCIH é multidisciplinar, composta por médicos infectologistas, enfermeiros especialistas em controle de infecção e representantes das coordenações de todos os setores do Hugo, além das gerências assistencial e médica. A comissão realiza reuniões recorrentes para análise de dados, investigações e avaliação de indicadores. “Mensalmente, os resultados são apresentados aos colaboradores, ao corpo clínico e à gestão hospitalar, em ciclo contínuo de transparência e melhoria”.
Ele explica que a prevenção é construída de forma sistemática por meio de elaboração e monitoramento de protocolos assistenciais, com etapas bem definidas e acompanhamento, além do portal de suporte à decisão clínica, utilizado pelo corpo clínico para o fortalecimento dos protocolos de prevenção e manejo de infecções hospitalares; educação continuada de toda a equipe; a vigilância de processos de prevenção de infecção e auditoria comportamental, com retorno imediato às equipes e lideranças nas áreas de higiene de mãos, uso seguro de dispositivos invasivos (cateteres, ventiladores mecânicos), bem como uso racional de antibióticos e o controle da limpeza e desinfecção do ambiente, em atuação conjunta com as equipes de higiene, projetos e obras e suprimentos, assegurando condições essenciais à segurança do paciente.
Questionado sobre o índice de ocorrências de infecções no hospital, o médico assinala que é importante ressaltar que as Infecções Relacionadas à Assistência à Saúde são um risco inerente à internação hospitalar, especialmente em pacientes graves que necessitam de procedimentos invasivos, perfil característico de uma urgência de alta complexidade como o Hugo. “Por isso, mais relevante do que apresentar taxas isoladas é demonstrar o trabalho ativo e contínuo de prevenção, com rigor técnico na coleta, análise e classificação dos casos. Esse rigor é, em si mesmo, indicador de boas práticas: hospitais que vigiam e notificam bem tendem a ter dados mais fidedignos.”
De acordo com o médico, os indicadores prioritários acompanhados pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) são: pneumonia associada à ventilação mecânica (PAV), infecção pulmonar que se desenvolve em pacientes que respiram com auxílio de aparelhos; infecção primária da corrente sanguínea associada à cateter venoso central (IPCS-CVC), que é uma infecção que se origina a partir de cateteres profundos usados para administrar medicamentos; infecção do sítio cirúrgico em cirurgias limpas: a infecção da ferida operatória após procedimentos realizados em condições estéreis e a infecção do trato urinário associada à cateter vesical de demora (ITU-CVD), uma infecção urinária relacionada ao uso de sondas vesicais de demora.
Borges assegura que desde que a Sociedade Beneficente Israelita Brasileira Albert Einstein assumiu a gestão do Hugo, em junho de 2024, tem se observado uma tendência consistente de redução nos indicadores prioritários ao longo de 2025 e nos primeiros meses de 2026.
Com referência no relatório do Comitê Municipal de Controle de Infecção em Serviços de Saúde de 2023 (COMCISS/Goiânia), que apresenta a distribuição das taxas dos hospitais municipais com UTI adulto, os índices do Hugo estão em conformidade com as médias. “A taxa de infecção urinária na UTI adulto do Hugo está praticamente alinhada à mediana dos hospitais municipais de Goiânia; a infecção de corrente sanguínea, embora acima da mediana, permanece dentro da faixa esperada para hospitais de alta complexidade, com processo estatisticamente sob controle; e a pneumonia associada à ventilação mecânica apresenta tendência clara de redução ao longo de 2026”, explica o profissional.
Prevenção é colaborativa
Segundo o médico, a prevenção de infecções hospitalares é, antes de tudo, uma questão de segurança do paciente e, por isso, ocupa lugar central na cultura de cuidados do Hugo: “As IRAS podem impactar a recuperação, prolongar a internação e elevar custos assistenciais”.
Ele alerta que todas as pessoas que circulam no ambiente hospitalar precisam ser responsáveis por minimizar os riscos, por isso, a orientação é contínua e adaptada a cada público. Os colaboradores passam por capacitação obrigatória na admissão e educação continuada ao longo do vínculo, abordando higiene das mãos, protocolos assistenciais, precauções específicas e uso racional de antibióticos. Cada profissional também deve ser um multiplicador dessas práticas.
Já os pacientes recebem orientações verbais e escritas sobre higiene das mãos, cuidados com curativos e cateteres e os sinais de alerta. Para os visitantes também há orientação por meio de comunicação direta nos pontos de circulação do hospital, com foco na higienização das mãos na chegada, na saída e antes e depois de tocar o paciente. Também são alertados sobre a importância de evitar as visitas, quando estiverem doentes, com sintomas gripais, mal-estar, quadros clínicos em investigação e internações hospitalares recentes e no respeito ao número de acompanhantes permitido.
“Cada parte tem um papel essencial: os colaboradores do hospital são a principal barreira: aplicam os protocolos com disciplina e participam de revisões frequentes conduzidas pelo SCIRAS. Os pacientes atuam como parceiros do cuidado, mantendo a higiene pessoal e a adesão ao plano terapêutico e os visitantes colaboram evitando trazer novos microrganismos para o ambiente hospitalar e respeitando as regras de visitas”, reforça o gestor.
O médico lista ainda uma série de medidas que são fundamentais para se reduzir as infecções hospitalares, como o uso correto de equipamentos de proteção individual (EPIs) e a adoção das chamadas “precauções padrão” (cuidados básicos aplicados a todos os pacientes, como higiene das mãos e uso de luvas em contato com fluidos) e “precauções específicas” (cuidados adicionais conforme o microrganismo envolvido, como avental, máscara especial ou quarto privativo).
Também no rol desses cuidados estão protocolos assistenciais para dispositivos invasivos; limpeza e desinfecção rigorosas das superfícies durante a internação e após a alta; o uso racional de antimicrobianos, por meio do Programa de Gerenciamento de Antimicrobianos, fundamental no enfrentamento da resistência bacteriana, a identificação precoce e isolamento adequado de pacientes colonizados ou infectados por bactérias multirresistentes e a vacinação da equipe (influenza, covid-19, tríplice viral, entre outras) e dos pacientes, quando indicado.
Por último ele lembra que uma medida simples é a mais importante e mais eficaz, em qualquer hospital do mundo: “a higienização das mãos com água e sabão ou com álcool em gel a 70% nos cinco momentos recomendados pela Organização Mundial da Saúde (OMS): antes do contato com o paciente, antes de procedimentos limpos ou estéreis, após risco de exposição a fluidos, após contato com o paciente e após contato com as áreas próximas a ele”
Hospital Jardim América
No Hospital Jardim América, do grupo HapVida, a atuação da Comissão de Controle de Infecção Hospitalar (CCIH) não difere muito da unidade pública. Segundo o diretor-médico da unidade, Wesley Medeiros, o trabalho é feito de forma contínua no monitoramento, prevenção e controle das infecções relacionadas à assistência à saúde. “Em um hospital pediátrico e maternidade, esse cuidado é ainda mais importante devido à vulnerabilidade dos recém-nascidos, gestantes e crianças.”
O diretor explica que a vigilância epidemiológica diária, a elaboração de protocolos, os treinamentos frequentes das equipes, o acompanhamento do uso racional de antibióticos e o monitoramento de indicadores assistenciais, integram a rotina da CCIH.
Outras práticas também são adotadas, como a realização de auditorias de higiene das mãos, cuidados com dispositivos invasivos, limpeza e desinfecção de ambientes e orientação constante aos profissionais, pacientes e familiares. “A prevenção é baseada principalmente em práticas simples, mas muito eficazes, como higiene adequada das mãos, uso correto de equipamentos de proteção individual, vacinação dos profissionais e adoção de protocolos de segurança assistencial”, assegura o médico.
Quanto aos índices de casos de infecções relacionadas à assistência à saúde, o profissional alega que são considerados baixos, especialmente quando comparados aos referenciais nacionais para hospitais de perfil semelhante. “Esse resultado é fruto do trabalho contínuo das equipes assistenciais e da atuação ativa da CCIH”, justifica o diretor.
Casos ativos
Quando ocorre suspeita ou confirmação de infecção relacionada à assistência, Wesley Medeiros explica que o caso é avaliado rapidamente pela equipe assistencial em conjunto com a CCIH. Imediatamente são iniciadas medidas de controle para evitar a transmissão, além da investigação da possível origem da infecção. “Todas as infecções relacionadas a assistência são notificadas para controle da Anvisa. O setor de CCIH nacional da Hapvida também é notificado e são realizadas reuniões com a equipe nacional e do nosso hospital para avaliar possíveis falhas na assistência e traçar um plano de ação efetivo para prevenir novos eventos.”
Ele ainda ressalta que o tratamento vai depender do tipo de infecção e do agente causador, podendo envolver antibióticos, antifúngicos ou outras terapias específicas, além do monitoramento clínico próximo do paciente.
“Na grande maioria dos casos, principalmente quando identificados precocemente, os pacientes evoluem bem e apresentam resolução completa do quadro. O diagnóstico rápido e a atuação integrada das equipes fazem grande diferença nos desfechos”, avalia.
Outro ponto em comum do Hospital Jardim América com o Hugo é o entendimento de que a prevenção das IRAS é uma responsabilidade compartilhada, entre os públicos que frequentam a unidade.
Segundo o diretor-médico, os profissionais recebem treinamentos periódicos sobre medidas de prevenção, segurança do paciente e protocolos assistenciais, já os pacientes e acompanhantes são orientados sobre higiene das mãos, etiqueta respiratória e cuidados durante a internação e os visitantes recebem orientações sobre restrição de visitas em casos específicos, uso de máscaras quando indicado e higienização das mãos ao entrar e sair dos quartos.
“Cada pessoa tem um papel importante na prevenção. Pequenas atitudes, como higienizar as mãos corretamente, evitar visitas quando estiver com sintomas gripais e seguir as orientações da equipe, ajudam significativamente na segurança de todos”, ensina o diretor.
Ele também reforça o alerta feito pelo colega do Hospital de Urgências de Goiás. “A principal forma de prevenção continua sendo a higiene adequada das mãos, considerada a medida mais eficaz e simples contra a transmissão de infecções. Além disso, também são fundamentais o uso correto de equipamentos de proteção, a limpeza e desinfecção adequadas dos ambientes e materiais, o uso racional de antibióticos, a vacinação dos profissionais de saúde, a identificação precoce de casos suspeitos e a adesão aos protocolos assistenciais e de segurança do paciente”.
Fonte: Assembleia Legislativa de GO











































