E com imenso pesar que constatamos como a sociedade brasileira não tem conseguido garantir a dignidade das mulheres. Segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, o Brasil registrou mais de 1.400 feminicidios em 2025: 8 em cada 10 foram mortas por companheiros ou ex-companheiros; mais de 64,3 % foram mortas em casa, a média foi de 4 mulheres mortas por dia; 187 casos de estupros por dia e mais 51.866 registros de violência psicológica.
Muitas destas violências ocorreram dentro de suas próprias casas, em muitos casos na frente de crianças e adolescentes. São violências físicas, psicológicas, sexuais e patrimoniais. Esses dados não são estatísticas frias. São histórias interrompidas, filhos que crescem sem mães, familias dilaceradas.
E oportuno recordar que a mulher é parte constitutiva do projeto criador de Deus. Não como apêndice, não como coadjuvante, mas como presença essencial na história da salvação.
Desde as páginas do Gênesis, quando homem e mulher são criados à imagem e semelhança do Criador (cf. Gn 1,27), a dignidade feminina é afirmada como realidade ontológica, não como concessão cultural. Ao longo da história bíblica, mulheres foram protagonistas de processos decisivos: a coragem de Ester, a fidelidade de Rute, a força profética de Débora. E no centro da história da redenção está uma mulher, Maria de Nazaré, cujo “sim” abriu caminho para a encarnação do Verbo.
Jesus teve um trato muito especial com as mulheres, promovendo o seu respeito e inclusão.
Segundo o evangelho de São João, o Ressuscitado se fez ver por primeiro a Maria Madalena e a enviou como “apóstola dos apóstolos”‘ a anunciar que Ele esta vivo (cf. Jo 20,11-18). Nas comunidades primitivas as mulheres ocuparam lugar decisivo para a transmissão da fé. Ao longo da história do cristianismo são incontaveis as que foram proclamadas santas, entre as quais há aquelas que receberam o título de doutoras da Igreja. Há, também, místicas e teólogas. Hoje, as mulheres são maioria nas comunidades católicas, destacando-se na catequese, na liturgia e em diversos ministérios não ordenados.
A multiplicidade dos dons femininos faz parte da construção e promoção do bem comum e de um mundo melhor. Hoje as mulheres estão na ciência, na pesquisa, na política, na educação, na economia, nas Forças Armadas, nas universidades e inúmeros outros campos.
Reconhecer os seus dons e suas presenças não é gesto de gentileza; é dever de justiça.
Todas estas formas de presença e atuação por parte das mulheres contrasta com os números acima que mostram como persiste uma cultura de desrespeito pela mulher. É preciso que todos trabalhemos por uma mudança cultural e estrutural. Tal mudança passa pela educação nas famílias, nas escolas, nas igrejas, nas políticas públicas. Nas palavras, todos estamos de acordo que o homem e a mulher têm a mesma dignidade enquanto pessoas. Mas na prática, isso acontece?
Dom João Justino de Medeiros Silva, arcebispo de Goiânia e 1º Vice Presidente da CNBB
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