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Em busca de readequação

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No interior de Goiás colégios tradicionais mantidos por congregações católicas estão encerrando suas atividades diante do desafio de administrar crescentes despesas, alta inadimplência e um número cada vez menor de alunos. A entrada no mercado de escolas focadas em resultados visando o acesso ao ensino superior trouxe à tona uma concorrência mortal, mas não apenas isso. A mudança comportamental das famílias, a maior oferta de escolas públicas e a pluralidade religiosa nas últimas décadas influenciaram decisivamente para a desativação de instituições de ensino emblemáticas em suas comunidades. Apesar desse aparente quadro de esfacelamento, a Associação Nacional de Educação Católica no Brasil (Anec) garante que as instituições vivem um momento vigoroso.

Em novembro do ano passado, o POPULAR mostrou em ampla reportagem o que levou o Colégio Sant’Anna, da cidade de Goiás, que funcionou ininterruptamente durante 126 anos, a não abrir suas portas para o ano letivo de 2015. A instituição estava deficitária há pelo menos oito anos, segundo a Congregação Dominicana da Província Nossa Senhora de Guadalupe, sua mantenedora. Situação semelhante viveu o também histórico Colégio Imaculado Coração de Maria, em Itaberaí, de 1940, da Congregação das Franciscanas da Ação Pastoral, que fechou suas portas em dezembro de 2007; e o Colégio Nossa Senhora de Fátima, em Porangatu, de 1950, que há dois anos sucumbiu à uma dívida de cerca de R$ 3 milhões. Em Ceres, o Colégio Imaculada Conceição, de filosofia franciscana como o de Porangatu, iniciou o ano letivo de 2015 com apenas 68 alunos e não deve reabrir no ano que vem após mais de 60 anos de história na educação no Vale do São Patrício.

No final dos anos 90, a então Associação Nacional de Mantenedoras de Escolas Católicas (Anamec), hoje Anec, percebeu que para defender melhor seus interesses era preciso conhecer profundamente o universo das escolas. Um grande estudo revelou que nos cinco anos anteriores, tradicionais instituições de ensino de 1º e 2º graus em todo o País tinham perdido 20% de seus alunos, cerca de 200 mil, que se transferiram para escolas privadas ou públicas. Diagnosticou-se nesse estudo que, além da não adaptação às mudanças de comportamento fora de seus muros, proliferaram escolas mais perto de casa e houve uma grande aceitação do modelo pragmático de ensino, com dicas para o vestibular e a vida profissional.

A pesquisa foi o estopim para a reação. Secretário da Câmara de Mantenedoras da Anec, Guinartt Diniz Antunes informou ao POPULAR que as instituições católicas se uniram em rede, fizeram uma reestruturação pedagógica padronizada em suas unidades, investiram em novos materiais didáticos, principalmente tecnologia de ponta. Enfim, se profissionalizaram para enfrentar a concorrência. “Nossas instituições se fortaleceram em termos pedagógicos, mas sem perder sua missão institucional de garantir, dentro dos preceitos católicos, uma formação humanística aos alunos. Cresceu o número de alunos em nossas instituições”.

Segundo Guinartt, o fechamento de escolas pelo interior do Brasil faz parte desse processo de reestruturação. “Algumas congregações tem uma estrutura robusta, com escolas que exigem manutenção muito cara. Há casos em que a reorganização institucional levou ao fechamento de uma escola, mas duas de menor porte foram abertas no lugar. Hoje, a Anec representa mais de 2,5 mil escolas com um contingente superior a 2,5 milhões de alunos, além de 134 instituições de ensino superior. A entidade criou uma ferramenta que avalia anualmente seus alunos e o corpo docente das escolas associadas e aponta vantagens e desvantagens dos métodos utilizados.

Adequação às demandas

Com sede em Curitiba (PR), o Grupo Bom Jesus é uma rede educacional mantida pela Associação Franciscana de Ensino Senhor Bom Jesus. Embora nenhum de seus 31 colégios esteja em Goiás, sua proposta pedagógica é utilizada pela Rede Escolar Franciscana (REF), com mais de 60 anos de tradição. A REF é responsável por cinco colégios, um em Brasília (DF), e quatro em território goiano: São Bernardino de Siena (Catalão), Sagrado Coração de Jesus (Pires do Rio), Imaculada Conceição (Ceres) e São Francisco de Assis (Anápolis). À frente da REF, frei Flávio Pereira Noleto, doutor em Educação, ressalta que escolas não possuem apenas o campo pedagógico, mas também a questão administrativa. “O mundo mudou. Hoje uma sala de aula com 40 alunos não tem a mesma produtividade de antes. E nossas escolas são acolhedoras para a inclusão”.

Frei Flávio lembra que a crise financeira que levou ao fechamento da unidade de Porangatu e pode ocorrer o mesmo com a de Ceres também está relacionada ao comportamento dos pais. “Eles pensam numa escola católica até o sétimo ano, depois acham que o filho precisa ser preparado para ganhar dinheiro e buscam escolas comerciais”. Conforme frei Flávio, o foco da REF sempre foi a formação humana e o ensinamento de como fazer uma leitura da vida e isso não mudou. Foi preciso, no entanto, uma reestruturação institucional e se adequar às demandas dos processos seletivos de acesso à universidade e no jeito de administrar.

“Antes, padres e freiras estavam dentro das escolas e faziam o trabalho com gratidão. Com a crise vocacional, tivemos de fazer contratações e isso não é barato”. Hoje, em média, professores da rede privada recebem entre 60 e 100 reais a hora/aula. Diante de uma situação deficitária no Colégio Imaculada Conceição, a REF celebrou um convênio com o Governo de Goiás que passou a suprir a escola com o corpo docente e uma taxa pequena era cobrada dos alunos, mas em 2013 ele foi finalizado. “Tínhamos alunos dentro do prédio, mas como fazer a manutenção do espaço físico, investir em tecnologia e reformas de carteiras?”, questiona frei Flávio.

 
Mantovani Fernandes

 

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Informações O Popular / Malu Longo

 

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