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opinião

Risco geopolítico e a fatura da incerteza

O mundo em que estamos entrando é incerto, mas não incompreensível, e sai na frente quem se posiciona melhor.
Philipe Moura. Foto: Divulgação

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Em um jantar executivo perto da Faria Lima, o burburinho sobre as eleições se mistura ao tilintar de taças. Alguém propõe um brinde: “Aos tempos interessantes!” Risos contidos, mas um retrogosto amargo para o CEO. A euforia do analista é, muitas vezes, o pesadelo do gestor.

A relevância da análise política cresce na proporção exata da desordem global. Se o mundo operasse segundo manuais previsíveis, bastaria discutir eficiência e escala. Mas vivemos o que Ian Bremmer definiu como mundo G-Zero: um vácuo de liderança global em que nenhum país possui capacidade e interesse de impor estabilidade.

É neste vácuo que floresce a era da incerteza. Independente do acrônimo de sua preferência (como VUCA ou BANI), testemunhamos uma mudança estrutural em que a lógica política atropela a de mercado, atingindo diretamente a última linha do balanço de empresas em todos os segmentos.

Um dos riscos destacados no respeitado relatório de riscos da Eurasia Group deste ano é o descasamento de apostas sobre o futuro da energia; enquanto os Estados Unidos apostam em ser uma superpotência fóssil, a China se consolida como o primeiro “eletro-estado”, dominando a provável infraestrutura do século 21.

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A fragmentação é a regra no G-Zero, e isso também vale para a inteligência artificial. A IA avança a passos largos em um caleidoscópio político e regulatório, com a União Europeia repensando seu marco legal, alguns governos optando por abordagens mais frouxas, e a cooperação internacional segue limitada.

Para um executivo brasileiro, nada disso fica detido no campo das ideias; por exemplo, escolher um fornecedor de tecnologia (seja de IA, infraestrutura digital ou até energia) pode, dependendo dos ventos geopolíticos, fechar portas de financiamento ou atrair tarifas. A decisão técnica é, cada vez mais, uma decisão política.

Além das tarifas, a política externa americana mais coercitiva para o hemisfério – a já famosa Doutrina Donroe – sugere que haverá pressão sobre câmbio e cadeias de suprimentos na América Latina. Calcular riscos vira menos matemática e mais aposta no humor de potências rivais. Mesmo com episódicas movimentações contrárias, como a assinatura do acordo Mercosul-UE, desfez-se a ilusão da blindagem contra choques externos.

No cenário doméstico, riscos políticos, por vezes tratados como notas de rodapé, tornam-se fatores decisivos, minando ou viabilizando a capacidade de executar estratégias.

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O mundo em que estamos entrando é incerto, mas não incompreensível, e sai na frente quem se posiciona melhor. Se o seu P&L ainda não reflete os custos da incerteza, alguém fará essa conta por você – e, aposto, a fatura será alta.

De volta ao jantar: um brinde! Sim, é um ano espetacular para analistas. Já para quem deve entregar resultados a celebração é temerária. O empresário que trata política como ruído navega sem bússola; pode até chegar lá, mas vai estar na mão do destino.

Philipe Moura

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