Um marco histórico para Goiás
O ano que marca os 80 anos da criação da Colônia Agrícola Nacional de Goiás (CANG), um dos projetos mais importantes de colonização agrícola implantados no Brasil durante o século XX. A iniciativa do governo federal, criada na década de 1940, mudou definitivamente a realidade da região conhecida como Mata de São Patrício e deu origem ao município de Ceres, hoje referência regional no centro-norte goiano.
A proposta da CANG era clara: incentivar a ocupação produtiva do interior do país, promover a agricultura familiar e oferecer oportunidades para milhares de brasileiros que buscavam terra e condições para trabalhar. Foi nesse cenário que começou a ser construída a história de Ceres.
Um projeto que transformou o Cerrado
Antes da implantação da CANG, grande parte da região era composta por extensas áreas de Cerrado ainda pouco ocupadas. A criação da colônia atraiu famílias vindas de diversas partes do Brasil, especialmente do Sudeste, Sul e Nordeste.
Os colonos recebiam lotes agrícolas e iniciavam ali um novo ciclo de vida. Pequenas propriedades passaram a produzir alimentos e a formar uma comunidade baseada no trabalho rural e na cooperação entre as famílias.

Com o crescimento da colônia, foi estruturado um núcleo urbano que passou a oferecer serviços básicos, comércio e apoio aos agricultores. Esse núcleo recebeu o nome de Ceres, inspirado na deusa romana da agricultura, simbolizando a vocação produtiva da região.
O nascimento de uma cidade
O desenvolvimento da colônia fez com que o povoado crescesse rapidamente. Em poucos anos, a região passou a concentrar grande número de famílias e atividades econômicas ligadas à agricultura.

Com esse crescimento, veio também a necessidade de autonomia administrativa. Assim, em 1953, Ceres foi elevada à categoria de município, consolidando-se hoje como um dos principais centros urbanos do Vale do São Patrício.
Ao longo das décadas seguintes, a cidade ampliou sua importância regional, tornando-se polo de comércio, serviços, educação e saúde para municípios vizinhos.
O olhar da história
Para o historiador regional Paulo Henrique Andrade, estudioso da formação do Vale do São Patrício, os 80 anos da CANG representam um momento importante de reflexão sobre o desenvolvimento da região.
“A criação da colônia foi decisiva para transformar essa parte de Goiás. A CANG trouxe agricultores, organizou a distribuição de terras e estimulou a produção. Foi um projeto que marcou profundamente a história regional”, afirma.
Segundo ele, poucas iniciativas governamentais tiveram impacto tão direto na formação de cidades quanto a colônia implantada em Ceres.
“A cidade praticamente nasceu desse projeto. É um exemplo claro de como uma política pública de ocupação territorial pode gerar desenvolvimento e identidade cultural”, acrescenta.
Memórias que atravessam gerações
Entre moradores antigos, as histórias da colônia ainda são lembradas com orgulho. Muitos são filhos ou netos dos primeiros colonos que chegaram à região para construir uma nova vida.
A aposentada Maria do Carmo Souza, moradora de Ceres há mais de 60 anos, conta que seus pais vieram para a região movidos pela esperança de prosperar.
“Eles chegaram aqui quando ainda estava tudo começando. Era muito trabalho, mas também muita união entre as famílias. A CANG representava uma oportunidade de recomeço”, lembra.
O agricultor Antônio Pereira Lima, que vive na região desde a juventude, acredita que o espírito pioneiro ainda faz parte da cultura local.
“Quem conhece a história de Ceres sabe que a cidade nasceu da coragem de quem acreditou na terra. Os 80 anos da CANG lembram exatamente isso”, destaca.

O aposentado e ex-pedreiro Geracino Marques da Costa, o seu Negrinho hoje com 92 anos, trabalhou com o médico Dr. Domingos Mendes da Silva no início de Ceres, trabalhando em diversas construções que foram edificadas no município, como a Primeira Igreja Batista, o atual hospital Intervida – Dr. Domingos (Antigo Centro Norte Goiano), a Loja Maçônica Dr. Álvaro de Melo (atualmente Dr. Domingos Mendes da Silva) da qual é fundador e atualmente remido da Maçonaria, Fábrica de Farinha em 1982 na gestão do então prefeito Dr. Carlos Mendes (filho do Dr. Domingos) a Igreja Católica do distrito do Sapé em 1965, dentre outras.
A imprensa e a memória regional
O crescimento da cidade também foi acompanhado pela consolidação da imprensa local. Em 1975 foi fundado em Ceres o JORNAL DO VALE, veículo que ao longo das décadas se tornou uma importante fonte de informação e registro da vida regional e estadual.

Desde sua criação, o jornal acompanha acontecimentos políticos, sociais e econômicos do Vale do São Patrício, além de preservar relatos históricos da comunidade.
Para pesquisadores e moradores, publicações regionais têm papel fundamental na preservação da memória coletiva. “Jornais locais ajudam a contar a história das cidades a partir do olhar da própria comunidade”, observa o historiador Andrade.
O legado da CANG
O aniversário de 80 anos da Colônia Agrícola Nacional de Goiás reforça a importância de um projeto que ajudou a transformar o interior goiano e a construir a identidade de toda uma região.
Mais do que um programa de colonização, a CANG representou um ponto de partida para o surgimento de cidades, para o fortalecimento da agricultura e para a formação de comunidades que continuam contribuindo para o desenvolvimento de Goiás.
Em Ceres, essa história permanece viva na memória de seus moradores, nas ruas da cidade e nas gerações que seguem construindo o futuro sobre as bases deixadas pelos pioneiros da colônia.
Médicos pioneiros da CANG
Entre os profissionais que contribuíram para a assistência à população nos primeiros anos da colônia destacam-se: Dr. Domingos Mendes da Silva; Dr. Jair Dinoah Araújo e Dr. Fernando Albuquerque.

Eles integraram o grupo de profissionais que aceitaram o desafio de trabalhar na região ainda em formação, ajudando a construir os primeiros serviços de saúde da comunidade. Dentre eles, houve outros nomes, mas Dr. Domingos Mendes da Silva construiu o Hospital Centro Norte Goiano, o Dr. Jair Dinoah o Hospital São Lucas, o Dr. Fernando Albuquerque o Hospital São Patrício. Dr. Silas Fernandes Avelar o Hospital Santa Helena, prédio que hoje funciona dois comércios e o Vapt-Vupt em Ceres. Todos os médicos mencionados, possuem hoje filhos médicos em Ceres ou em outras cidades. Dr. Domingos, os médicos Dr. Carlos Hassel Mendes (ex-prefeito de Ceres, ex-secretário de Estado de Saúde do Governo Maguito Vilela), Dr. Domingos Filho e o Dr. Franscisco Hassel. Dr. Jair o médico ginecologista Dr. Luiz Roberto. Dr. Fernando Albuquerque o Dr. Aristides e o Dr. Silas, o médico Dr. Silas Filho.

Importante registar que a Unidade de Pronto Atendimento (UPA) de Ceres, leva o nome do médico Dr. Jair Dinoah Araújo. Após o pioneirismo dos médicos mencionados, Ceres teve e tem nos dias de hoje vários nomes da medicina.

Relação da Deusa Ceres com a Cidade de Ceres
A cidade de Ceres, recebeu esse nome em homenagem à deusa romana Ceres, protetora da agricultura e dos cereais. O nome reflete a importância histórica da agricultura para a região, que é uma área tradicionalmente voltada ao cultivo de grãos, como milho, arroz e soja.
Assim como a deusa Ceres simboliza a fertilidade da terra e a abundância das colheitas, a cidade busca representar esses mesmos valores por meio do desenvolvimento agrícola, que é a base da economia local. O nome é, portanto, uma referência simbólica ao sustento, à produtividade e à prosperidade ligados à terra, reforçando a identidade do município como um centro agrícola em Goiás.
O comércio e o plantio de cereais em Ceres: da força agrícola da CANG à mudança econômica atual
A história econômica de Ceres, no Vale do São Patrício, está profundamente ligada à criação da Colônia Agrícola Nacional de Goiás (CANG), implantada em 1941 como parte da política de ocupação do interior do Brasil durante o governo de Getúlio Vargas. O objetivo principal era fixar agricultores no Centro-Oeste e ampliar a produção de alimentos para abastecer o mercado nacional.
A fase agrícola: cereais como base da economia
Nas décadas de 1940 e 1950, a região se consolidou como uma importante fronteira agrícola do estado de Goiás. A produção era baseada principalmente em cereais e culturas alimentares, cultivadas em pequenas propriedades distribuídas entre os colonos.
Entre os principais produtos estavam: arroz, milho, feijão, algodão, mandioca e cana-de-açúcar. O arroz e o milho eram os cereais mais representativos da economia local. Em determinados anos da década de 1950, a produção de arroz chegou a centenas de milhares de sacas, demonstrando a forte vocação agrícola da colônia.
Essa produção abastecia não apenas o mercado local, mas também outras regiões de Goiás e centros consumidores maiores. O comércio agrícola funcionava por meio de cerealistas, armazéns e empresas de beneficiamento, responsáveis por processar e enviar os produtos para outros mercados.
A cidade de Ceres, nesse período, exercia basicamente o papel de apoio ao campo, funcionando como ponto de comércio, armazenamento e beneficiamento da produção agrícola regional.
Estrutura produtiva baseada na pequena propriedade
O modelo inicial da CANG privilegiava pequenas propriedades rurais. Os colonos recebiam lotes agrícolas e apoio do governo para iniciar o cultivo. A proposta era criar uma rede de agricultores familiares capazes de produzir alimentos e sustentar o crescimento populacional da região.
Contudo, com o passar do tempo surgiram vários problemas falta de assistência técnica adequada, ausência de mecanização agrícola esgotamento do solo após anos de cultivo intensivo e dificuldade de crédito para pequenos produtores.
Além disso, o crescimento do mercado e da especulação de terras favoreceu a expansão de propriedades maiores e do capital comercial, o que acabou fragilizando o modelo de agricultura familiar.
A decadência do plantio de cereais
A partir das décadas de 1960 e 1970, a estrutura agrícola original começou a se desarticular. Muitos pequenos agricultores venderam suas terras ou migraram para centros urbanos maiores.
Entre os principais fatores que contribuíram para o declínio da produção agrícola em larga escala estão concentração de terras em propriedades maiores, mudança no modelo produtivo regional, êxodo rural e a modernização da agricultura em outras regiões mais competitivas.
Com isso, o cultivo de cereais que havia marcado o início da colonização foi gradualmente perdendo espaço.
A transformação econômica de Ceres
Com a queda da atividade agrícola como principal motor econômico, Ceres passou por uma redefinição de sua função regional.
A partir da década de 1970, o município se destacou cada vez mais como centro regional de serviços, especialmente na área da saúde. Hospitais, clínicas e serviços especializados começaram a se concentrar na cidade, atraindo pacientes de vários municípios do norte de Goiás e de outros estados do Norte.
Essa mudança fez com que a economia local deixasse de depender diretamente do campo, consolidando Ceres como um polo urbano de serviços, em vez de um centro agrícola.
Situação atual
Hoje, o plantio de cereais em grande escala praticamente não existe mais em Ceres como ocorria no período da CANG. A atividade agrícola ainda está presente na região, mas é mais diversificada, ocorre em menor escala dentro do município e muitas áreas agrícolas passaram para municípios vizinhos após desmembramentos territoriais.

Ao mesmo tempo, a cidade consolidou sua importância regional em setores como saúde, comércio, educação e serviços especializados.
Assim, Ceres deixou de ser uma cidade essencialmente agrícola para se tornar um centro urbano voltado à prestação de serviços, mantendo apenas parte de sua ligação histórica com a produção rural.
Rialma e Ceres têm histórias muito ligadas desde a origem da região.
Rialma surgiu praticamente ao mesmo tempo que Ceres, durante o período da Colônia Agrícola Nacional de Goiás na década de 1940. Enquanto Ceres foi planejada como sede da colônia agrícola, Rialma começou a se formar do outro lado do Rio das Almas.
Na época, muitos trabalhadores, comerciantes e pessoas que não conseguiam terras na colônia se instalaram ali. O lugar era conhecido inicialmente como Barranca, porque ficava nas margens do rio.

Com o crescimento da população, o povoado se desenvolveu e acabou se tornando município. Assim nasceram duas cidades vizinhas que cresceram praticamente juntas.
Hoje, Rialma e Ceres formam um único núcleo urbano na prática, ligados por pontes e pela intensa circulação de pessoas. Enquanto Ceres se consolidou mais como centro de serviços, especialmente na área da saúde, Rialma mantém forte atividade comercial e industrial, funcionando como complemento econômico da região.
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