A decisão da Federação Goiana de Municípios (FGM) de conceder ao prefeito de Carmo do Rio Verde, Geraldo dos Reis Oliveira, o prêmio “Prefeito Amigo da Agricultura Familiar – Edição 2026” gerou forte reação de movimentos sociais e entidades ligadas à luta pela terra em Goiás. A homenagem está prevista para ser entregue em 18 de junho, durante a Agro Centro-Oeste Familiar, no Campus Samambaia da Universidade Federal de Goiás.
Em nota pública, uma articulação que reúne movimentos sociais, pastorais e organizações sindicais do campo manifestou repúdio à escolha do gestor. Segundo o documento, a homenagem ignora um dos episódios mais marcantes dos conflitos agrários no estado: o assassinato do líder sindical Nativo da Natividade de Oliveira, ocorrido em 23 de outubro de 1985.
Nativo, então presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Carmo do Rio Verde e militante em organizações sindicais e pastorais, tornou-se símbolo da luta pela reforma agrária e pelos direitos dos trabalhadores rurais em Goiás. Durante as investigações do homicídio, o prefeito foi denunciado pelo Ministério Público como um dos mandantes do crime. Em 1996, foi condenado pelo Tribunal do Júri de Goiânia, mas o julgamento foi anulado e um novo júri nunca chegou a ser realizado. Em 2011, a ação penal foi declarada prescrita.
Embora o processo tenha sido encerrado sem condenação definitiva, os movimentos sociais afirmam que o caso permanece vivo na memória das comunidades afetadas e das entidades de direitos humanos. “A homenagem agride a memória de Nativo da Natividade e representa desrespeito às famílias camponesas e à trajetória daqueles que lutaram pela terra e pela justiça social”, diz trecho da nota.
A articulação acrescenta que reconhecer ações públicas de apoio à agricultura familiar é legítimo, mas que homenagens desse tipo exigem critérios éticos e responsabilidade histórica. Para os signatários, a escolha do premiado desconsidera o peso simbólico do caso Nativo da Natividade e desrespeita a memória das vítimas da violência no campo.
A FGM comunicou oficialmente ao município que a premiação justifica-se pelo trabalho da administração municipal em favor da geração de renda, fortalecimento da produção rural e desenvolvimento local. A cerimônia de entrega está confirmada para às 14 horas do dia 18 de junho.
Ao final da nota, a articulação pede que a federação reveja a decisão e revogue a homenagem, argumentando que o gesto seria uma forma de respeito à memória do líder assassinado, aos seus familiares e às lutas históricas dos trabalhadores rurais em Goiás. As entidades afirmam que instituições públicas têm o dever de preservar a memória e zelar pelos direitos humanos, evitando reconhecer pessoas cuja trajetória esteja envolta em controvérsias que marcaram profundamente as comunidades do campo.
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