Lideranças do comércio em Goiás alertam que o avanço das plataformas de apostas esportivas — as chamadas bets — já começa a reduzir as vendas do varejo e a aprofundar o endividamento de famílias, especialmente as de menor renda. Pesquisa da Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL) em parceria com o Serviço de Proteção ao Crédito (SPC) aponta que cerca de 40 milhões de consumidores no país fizeram ao menos uma aposta online no último ano, tendência que se intensificou durante a Copa do Mundo.
“Embora não exista levantamento com recorte estadual, é visível que o varejo de Goiás não está imune aos prejuízos causados pelo direcionamento de parte do orçamento familiar para as apostas”, afirma Marisa Carneiro, presidente do Sindilojas-GO.
Para Valdir Ribeiro, presidente da Federação das Câmaras de Dirigentes Lojistas de Goiás (FCDL-GO), o setor enfrent a “uma crise urgente” diante de um competidor invisível. “O dinheiro gasto em bets está corroendo a economia e ameaçando a sustentabilidade do comércio, serviços e indústria”, diz Ribeiro, que afirma ainda ver crescimento da inadimplência no estado desde julho de 2024.
Estudos e impactos
Dados do Banco Central e da consultoria PwC mostram que, nas classes D e E, as apostas já representam 1,38% do orçamento familiar e chegaram a responder por 5,5% dos gastos com alimentação em 2024. Analistas do varejo estimam que as vendas do setor perdem mais de 11% ao ano por conta do redirecionamento de recursos para as apostas.
Os segmentos mais afetados são aqueles cujas compras podem ser adiadas: vestuário, calçados, eletroeletrônicos, perfumaria e cosméticos, entre outros. Com o orçamento apertado e o aumento das dívidas, cresce também a inadimplência, reduzindo ainda mais o poder de compra.
“Nossa preocupação é ver lojas vazias, estoques parados e pouco caixa — sintomas de um problema que ultrapassa a queda pontual nas vendas”, comenta Marisa Carneiro. Ela acrescenta que, se os recursos gastos em apostas fossem aplicados no consumo ou em investimentos, haveria mais dinamismo na economia local e mais geração de empregos.
Relatos pessoais
O impacto também se revela em histórias individuais. Um aposentado de 70 anos procurado pela reportagem, que pediu anonimato, relata ter comprometido renda nos últimos quatro anos com apostas. “Poderia ter economizado, comprado um carro, até uma casa, mas gastei em bets”, diz. Até por não ter despesas fixas na propriedade onde trabalhava, o aposentado lamenta que o vício nas apostas tenha consumido possibilidades de consumo e investimento. “Bet é uma doença”, afirma.
Pesquisa do Instituto Brasileiro de Executivos de Varejo (Ibevar) em parceria com a FIA Business School indica que as apostas online se tornaram um dos principais vetores de endividamento no país, superando compromissos por crédito e juros. Em 2024, as empresas de apostas faturaram R$ 37 bilhões no Brasil, enquanto o varejo atribui perdas de R$ 103 bilhões ao impacto das apostas.
O Mapa da Inadimplência do Serasa registra 3,3 milhões de brasileiros negativados em 2026. Dados do Datafolha, de abril, mostram que 67% dos brasileiros têm dívidas e 21% estão com pagamentos em atraso. Entre os tipos de dívida, cartão de crédito parcelado aparece para 29% dos endividados, seguido por empréstimos bancários (26%) e carnês de lojas (25%).
Pressão por políticas públicas
Representantes do comércio pedem medidas públicas para mitigar os danos causados pelas apostas online, como campanhas de prevenção ao jogo problemático, maior fiscalização das plataformas e políticas de atendimento e proteção ao consumidor endividado. As entidades defendem também ações para conscientizar famílias sobre gestão financeira e os riscos do jogo.
Enquanto não há um consenso sobre soluções legislativas em âmbito federal, o recado das lideranças do varejo é claro: sem intervenções e sem conscientização, o avanço das bets tende a aprofundar a crise de consumo e a aumentar a vulnerabilidade financeira de milhares de famílias em Goiás e no país.
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