A proteção de mais de 417 mil hectares de algodão, a prevenção de perdas nas lavouras de soja e o uso sustentável da água mobilizaram produtores, técnicos e pesquisadores do Matopiba às vésperas da safra 2026/27. O avanço da mosca-branca, a identificação de uma nova espécie de nematoide e a necessidade de melhorar o controle sobre o Aquífero Urucuia colocaram o manejo preventivo no centro das decisões para o próximo ciclo.
Os temas foram discutidos no 1º Simpósio Fitossanitário do Matopiba, realizado nos dias 15 e 16 de setembro, em Luís Eduardo Magalhães, no Oeste da Bahia. Matopiba é a região agrícola formada por áreas do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia e concentra algumas das principais lavouras de soja, milho e algodão do país.
O encontro ocorreu no momento em que a colheita do algodão se aproxima do fim e os produtores iniciam a preparação para a semeadura da soja. A escolha das estratégias de controle antes do plantio pode reduzir a pressão de pragas e doenças, evitar aplicações desnecessárias e preservar o potencial produtivo das lavouras.
A Bahia cultivou mais de 417 mil hectares de algodão na safra 2025/26 e deve superar 1 milhão de toneladas de pluma, o maior volume já registrado no Estado. Cerca de 80% da área havia sido colhida quando o simpósio foi realizado. O desempenho reforça a posição baiana como segunda maior produtora nacional, atrás apenas de Mato Grosso.
Manter esse crescimento, porém, exige atenção à destruição dos restos culturais, ao cumprimento do vazio sanitário e ao combate ao bicudo-do-algodoeiro. Plantas remanescentes podem servir de abrigo e alimento para insetos durante a entressafra, aumentando a população presente no início do próximo cultivo e elevando os custos de controle.
A mosca-branca também foi apontada como uma das ameaças de maior alcance regional. O inseto ataca soja, algodão, feijão e outras culturas, multiplica-se rapidamente e encontra abrigo em plantas cultivadas, invasoras e voluntárias. Além de retirar seiva, pode favorecer o desenvolvimento de fumagina e transmitir viroses, com reflexos sobre produtividade e qualidade.
A orientação apresentada aos produtores foi iniciar o acompanhamento desde os primeiros focos, em vez de aguardar o crescimento da infestação. O controle deve combinar monitoramento, eliminação de plantas hospedeiras, uso criterioso de defensivos, rotação de mecanismos de ação e preservação de inimigos naturais.
Produtos biológicos à base de fungos já utilizados no campo também podem integrar essa estratégia. A eficiência, entretanto, depende do momento da aplicação, das condições de temperatura e umidade e do tamanho da população da praga. Por isso, o controle biológico deve fazer parte de um programa de manejo e não ser tratado como uma medida isolada.
Outro alerta envolve o Pratylenchus brasiliensis, nematoide das lesões radiculares inicialmente identificado em áreas de soja do Tocantins e já encontrado em outros estados produtores. O organismo invade as raízes, prejudica a absorção de água e nutrientes e pode causar reboleiras, redução do desenvolvimento e queda de produtividade.
Estudo recente conduzido por pesquisadores brasileiros encontrou elevada capacidade de reprodução da espécie em soja. As cultivares avaliadas mostraram suscetibilidade, resultado que aumenta a importância do diagnóstico laboratorial e de pesquisas para identificar plantas hospedeiras, fontes de resistência e alternativas de rotação.
Para o produtor, a dificuldade está no fato de os sintomas poderem ser confundidos com deficiência nutricional, compactação do solo ou falta de água. A confirmação exige coleta adequada de solo e raízes. Sem o diagnóstico correto, a adoção de uma cultura de cobertura que também seja hospedeira pode aumentar a população do nematoide, em vez de reduzi-la.
A água constituiu o outro grande eixo do encontro. Aproximadamente 80% do Sistema Aquífero Urucuia estão em território baiano. A reserva subterrânea abastece cidades, contribui para a vazão dos rios e sustenta parte da agricultura irrigada do Oeste da Bahia, região que já reúne mais de 400 mil hectares irrigados.
A Associação de Agricultores e Irrigantes da Bahia e o Instituto do Meio Ambiente e Recursos Hídricos trabalham na implantação de uma rede com 300 poços de monitoramento ao longo dos próximos quatro anos. Os equipamentos deverão acompanhar o nível da água e produzir informações sobre recarga, reservas disponíveis e capacidade sustentável de uso.
O acompanhamento permitirá substituir estimativas gerais por dados coletados continuamente. Para os agricultores, essas informações poderão melhorar o planejamento da irrigação, orientar investimentos e dar maior segurança técnica às autorizações de uso da água. O sistema também deverá ajudar a identificar eventuais quedas do nível do aquífero antes que o problema comprometa a produção ou o abastecimento público.
Além da Bahia, o Aquífero Urucuia alcança áreas de Minas Gerais, Goiás, Tocantins, Maranhão e Piauí. A gestão da reserva, portanto, influencia não apenas propriedades isoladas, mas a segurança hídrica e a produção agropecuária de uma extensa faixa do Cerrado.
O simpósio reuniu representantes da Associação de Agricultores e Irrigantes da Bahia, Associação Baiana dos Produtores de Algodão, Associação dos Produtores de Soja e Milho da Bahia, Fundação Bahia, Sindicato dos Produtores Rurais de Luís Eduardo Magalhães e Agência de Defesa Agropecuária da Bahia.
As discussões mostraram que a próxima safra começa antes da entrada das plantadeiras no campo. A eliminação de restos culturais, o monitoramento antecipado de insetos, a análise de solo e raízes, o uso integrado de produtos químicos e biológicos e o controle do consumo de água podem reduzir custos e evitar que problemas localizados se espalhem pelas lavouras do Matopiba.
Fonte: Pensar Agro










































