Já existem óculos e fones de ouvido que traduzem conversas em tempo real. Para quem ensina inglês, isso poderia soar como ameaça, mas a professora Lorrayne Martins, fundadora do Inglês Sem Fronteiras, em Goiânia, enxerga o efeito contrário: a inteligência artificial aumentou a necessidade de aprender a falar o idioma.
Os números da própria escola apontam nessa direção. Em enquete interna feita pelo Inglês Sem Fronteiras no início de outubro, 78,5% dos alunos ouvidos disseram usar inteligência artificial para estudar inglês. Questionados sobre o motivo, 49,5% citaram tirar dúvidas, 45,8% traduzir, 31,8% conversar e praticar e 21,5% corrigir textos (era possível marcar mais de uma opção). Ou seja: a IA já faz parte da rotina de estudo, mas é mais usada para entender do que para falar.
Lorrayne diz que o resultado não a assusta. Para ela, quem trabalha com educação não pode ser cético diante da tecnologia: é preciso se atualizar e, se a IA existe, que ela seja bem-vinda. A professora afirma que a ferramenta ajuda em processos, na retenção de alunos e na qualidade do ensino.
No inglês, porém, segundo ela, a tradução automática não resolve o problema. Os dispositivos existem, mas a barreira da língua continua de pé.
“Hoje tem óculos que traduz, fone de ouvido que traduz, mas não tem chip da garganta que faz falar”, resumiu.
Traduzir, na visão de Lorrayne, não é o mesmo que se comunicar. A pessoa entende tudo o que é dito, mas continua sem voz: ninguém consegue ouvi-la porque ela não fala inglês. A professora cita como exemplo um congresso internacional. Com fone ou óculos de tradução, a pessoa sai de lá compreendendo o que foi dito, mas perde o networking, o rapport e as novas conexões e indicações que surgem da conversa. Continua limitada, mesmo depois de investir em equipamentos caros.
Fora do inglês, a professora vê motivos de cautela. Em tarefas como redação, diz, a IA pode tirar do aluno o pensamento crítico: antes, o estudante consultava várias fontes e chegava à própria conclusão; hoje, muitas vezes tudo se concentra em um único chat, e o aluno apenas transfere para o papel o que a ferramenta entrega. Para ela, sem o trabalho de pesquisa, cai a chance de o estudante aprender e lembrar do que escreveu.
É aí que, para Lorrayne, entra o papel do professor, que vai além de transmitir conteúdo. Ela compara o professor a um mentor: quem guia o aluno é determinante para o resultado e precisa estar alinhado aos princípios, valores e objetivos de quem aprende, já que é essa pessoa que aponta o caminho, avisa quando é hora de acelerar e quando é hora de ir mais devagar.
“O professor bem orientado te passa atalhos. Não é porque o caminho é mais curto que ele é mais fácil, mas você chega lá com mais clareza. Sem essa orientação, o aluno até chega, mas leva mais tempo e quebra mais a cabeça. Por isso, podemos comparar o professor a uma bússola, que guia e orienta”, afirmou a professora.
Na prática, isso significa que a IA pode ser aliada de quem ensina. O professor pode usá-la para preparar aulas e materiais com mais agilidade, criar exercícios e atividades sob medida para cada nível, propor simulações de conversa para o aluno praticar entre uma aula e outra e dar um primeiro retorno sobre textos e vocabulário. Com parte do trabalho operacional resolvido, sobra mais tempo para o que a tecnologia não faz: ouvir o aluno, corrigir a pronúncia, motivar e orientar o caminho.
O professor também pode ensinar o aluno a usar a IA a seu favor. Em vez de pedir apenas a tradução de um texto, o estudante pode usar a ferramenta para simular um diálogo, tirar dúvidas e conferir o que ela respondeu, comparando com outras fontes em vez de aceitar uma única resposta. É um uso que exige orientação, e é aí que a mediação de quem ensina evita que a tecnologia substitua o raciocínio do aluno.
Na visão de Lorrayne, a pergunta que importa não é se a IA vai substituir o professor, mas como os dois podem trabalhar juntos para levar o aluno do entender ao falar.
“A IA é uma grande aliada do professor, nos processos, no planejamento e na prática. Mas ela não substitui quem olha para o aluno, entende o objetivo dele e mostra o caminho. O professor que aprende a usar a IA ganha tempo para fazer o que só ele faz: orientar”, conclui.
Sobre Lorrayne Martins | Inglês Sem Fronteiras
Formada em Letras e certificada pela Universidade de Cambridge, Lorrayne Martins fundou o Inglês Sem Fronteiras, em Goiânia, que completa cinco anos em 2026. A escola atende presencialmente, em três salas na capital, e online, reúne 453 alunos e 20 professores e trabalha com método autoral voltado ao público adulto, batizado de Produção Ativa.
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