Domingo, 13 de setembro de 1987. O dia em que Goiânia começaria a atrair cientistas, roteiristas de cinema, escritores, artistas e o preconceito. Goiânia se misturou à radioatividade, memória, dor e ignorância. Teve de ilhar-se, desprevenida, rechaçada. Goiânia não era mais cidade, era um amontoado de coisas debaixo de concreto, sob o zunido do detector de radiação.
A partir daquele dia, pelo menos 240 pessoas – 129 mil foram monitoradas à época – tiveram a vida transformada pela tragédia do pó azul, o césio-137, esparramado pelas ruas, casas, carros, ônibus, roupas e corpos. Era o maior acidente nuclear depois de Chernobyl, numa jovem cidade, de 54 anos.
O césio-137, transportado numa cápsula, ganhou liberdade, em quantidade pequena, mas alcançou o ar e com sua radioatividade, encobriu Goiânia de medo.
Tudo começou quando dois catadores de papel vislumbraram na peça uma boa venda.
Arrombaram o objeto, abandonado no antigo Instituto Goiano de Radioterapia, que ficava entre as avenidas Paranaíba e Tocantins, no Centro de Goiânia. O prédio, desativado, inseguro, abrigava uma cápsula de césio-137, um pó azul, semelhante ao sal.
Os dois catadores a levaram para um ferro velho para desmonte. O pó azul, desde então, imbatível, deteriorou corpos e matou a inocência de Leide das Neves, de 6 anos, hoje símbolo de justiça às vítimas. Isolado em um quarto, quando a luz se apagava, conta-se que ela brilhava, sendo a vítima com a maior radiação do acidente. Ela morreu no Hospital da Marinha, no Rio de Janeiro, a 23 de outubro de 1987. Enterrada em um caixão especial de fibra de vidro revertido com chumbo, sob gritos revoltosos. A população temia que o corpo da menina envenenasse a região.
Além de Leide, morreram a tia da menina, Maria Gabriela Ferreira, 37 anos; Israel Baptista dos Santos, 22; e Admilson Alves de Souza, 18. Os dois últimos, funcionários do ferro-velho, que tiveram contato direto com a cápsula.
Desassistência
A mãe de Leide, Lourdes das Neves Ferreira, de 64 anos, lembra com carinho da filha. “Ela era tão pequena, não dá para esquecer”, diz. Vinte e nove anos depois, as sequelas do acidente tornam o dia a dia de Lourdes martirizante. “Sinto muita dor e tudo piora quando não tenho os remédios”, conta.
Lourdes tem dois filhos, quatro netos e seis bisnetos. “Eles alegram a minha vida”, diz, pelo telefone, antes de reclamar da assistência do Governo. “O salário que o Estado de Goiás me paga está defasado. Recebemos o salário de 2014. Estou me sentindo abandonada”, reclama. Segundo Lourdes, neste momento, respeito e dignidade podem ajudá-la a superar a dor.
Depois de o marido Ivo Ferreira morrer, em 2003, aos 54 anos, Lourdes agora vive sozinha em uma casa em Aparecida de Goiânia, que comprou com a indenização que recebeu do Estado.
Arrependido de ter levado para dentro de casa o pó do césio, Ivo chegava a fumar seis maços de cigarro por dia e morreu com complicações no pulmão.
Ao passo que os anos passam, Lourdes tem a certeza de que vai morrer e não terá esclarecimentos sobre a tragédia. “Acho que não saberei o que realmente aconteceu”, finaliza.
A presidente da Associação das Vítimas do Césio-137, Suely Lima, recebeu a reportagem em sua casa, a poucas quadras de onde ocorreu o acidente, no setor Aeroporto. Para ela, a maior reclamação das vítimas é a falta de medicamentos e o salário pago pelo Estado, que está defasado. “As vítimas recebem salário de R$ 724. Como elas conseguem viver com esse valor?”, questiona.
Também beneficiária do auxílio, Suely Lima contaminou-se quando visitava a casa de Lourdes.
“Sem saber do risco, ia à casa dela e voltava para minha casa, trazendo com a terra o pó, o que acabou atingindo a mim e a meus filhos”, relata.
Nesta época de ano, Suely tem agenda lotada. Participa de seminários, debates, entrevistas e homenagens. Como representante dos radioacidentados, fica a cargo dela o dever e acompanhar tudo que é relacionado ao acidente. “Normalmente, outras vítimas não gostam de falar sobre o assunto. Estou acostumada”, diz.

Leide das Neves, 6 anos, a menina que brilhava no escuro
João de Barros, de 62, dirigia o caminhão da firma quando uma das caixas que apresentava rejeitos contaminados caiu do veículo. Ao pegar na caixa, contaminou-se e teve seu sistema nervoso atacado. “Desde então, tive hipertensão, arritmia e acabei sofrendo um Acidente Vascular Cerebral”, recorda. Atualmente, recebe pensões do Governo Estadual e Federal, que, segundo ele, contribuem para a compra de medicamentos.




































