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Saúde

De corpo magro a coração vazio: O lado sombrio das injeções milagrosas

Esses medicamentos, agonistas do receptor GLP-1, imitam hormônios que regulam o apetite. Mas seu alcance parece ir além do estômago, afetando o humor e o desejo.
Foto: Reprodução

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O boom das injeções para emagrecimento, como Ozempic e similares, transformou corpos em todo o mundo, mas agora um efeito colateral menos visível está roubando a cena: o suposto “apagão emocional”. Usuários relatam uma versão mais “sem graça” de si mesmos, com emoções achatadas e prazer diluído, alimentando discussões acaloradas nas redes sociais e na ciência.

Fenômeno vai além da aparência

Primeiro veio a “face Ozempic” — rostos alongados e sem volume, resultado da perda rápida de gordura facial. Depois, memes sobre bundas “defladas” com Mounjaro. Agora, o termo “personalidade Ozempic” descreve algo mais profundo: uma apatia que transforma alegrias e tristezas em meras anotações no diário. “Perdi 20 quilos, mas também o fogo pela vida”, desabafou uma usuária em fóruns online, ecoando centenas de relatos semelhantes.

Esses medicamentos, agonistas do receptor GLP-1, imitam hormônios que regulam o apetite. Mas seu alcance parece ir além do estômago, afetando o humor e o desejo. Estudos preliminares, como os publicados no Journal of Clinical Endocrinology & Metabolism, indicam que até 20% dos usuários experimentam fadiga emocional ou redução na libido, embora os dados sejam inconclusivos.

Cérebro no centro do furacão

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Especialistas apontam para o sistema de recompensa cerebral como culpado. Dopamina, o “neurotransmissor do prazer”, é ativada não só por comida, mas por sexo, álcool, vitórias no esporte ou o êxtase de um novo amor. “Essas drogas podem modular esse circuito, diminuindo picos de excitação”, explica o neurocientista brasileiro Roberto Landeira, em entrevista recente à imprensa.

Pesquisas em andamento, incluindo ensaios clínicos da Novo Nordisk (fabricante do Ozempic), investigam se o efeito é temporário ou persistente. Alguns pacientes celebram o ganho de confiança com o corpo mais magro, relatando libido renovada; outros, no entanto, sentem um “vazio existencial”. No Brasil, onde o uso explodiu em 2025 — com vendas subindo 300% segundo a Anvisa —, clínicas de endocrinologia já registram queixas recorrentes.

Relações em xeque

O impacto vai para o quarto e para o coração. Paixões intensas, movidas por dopamina e oxitocina, podem perder força, dificultando conexões profundas. Terapeutas sexuais observam um aumento em consultas por “desejo morno”, com casais atribuindo ao tratamento. “É como se o fogo do romance virasse brasa fria”, compara a psicóloga clínica Fernanda Torres, de São Paulo.

Paralelo literário assusta

A conversa evoca distopias clássicas, como Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley (1932), onde a pílula “soma” garante felicidade rasa, sem altos e baixos emocionais. Num mundo de emoções “Ozempic”, seria a humanidade mais produtiva, mas menos humana? Filósofos contemporâneos debatem: o controle do peso vale o risco de uma vida sem picos de euforia?

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Equilíbrio entre benefícios e alertas

Para médicos, os ganhos — controle de diabetes tipo 2, redução de riscos cardíacos — superam os mistérios emocionais na maioria dos casos. A recomendação é monitorar sintomas e pausar se necessário. No fim, o debate reflete uma era de biohacking: quão longe vamos por um corpo ideal, sacrificando a alma vibrante?

Reportagem baseada em estudos científicos, relatos de usuários e análises de especialistas.

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