A taxa de mortes no trânsito relacionadas ao consumo de álcool subiu novamente no Brasil e chegou em 2024 à média de 6,2 óbitos por 100 mil habitantes, segundo levantamento do Cisa (Centro de Informações sobre Saúde e Álcool). É o maior índice registrado desde 2016, quando a taxa foi 6,4, e interrompe o período de queda observado antes da pandemia.
O estudo do Cisa, baseado em registros do DataSUS, aponta que em 2024 ocorreram 13.075 mortes atribuídas ao uso de álcool em acidentes de trânsito — um aumento de 6,2% em relação a 2023. A série histórica do levantamento teve início em 2010, dois anos após a implementação da Lei Seca, que em 2008 instituiu tolerância zero para consumo de álcool ao volante.
Pesquisadores e especialistas indicam que a expansão da frota de motocicletas nos últimos anos contribui para o agravamento do problema. De 2019 a 2024, a frota de motos passou de 23,6 milhões para 28,3 milhões de veículos, alta de 20%, bem acima do crescimento dos automóveis. “O trânsito está mais complexo”, afirma a socióloga Mariana Thibes, coordenadora do Cisa. Segundo ela, motoristas alcoolizados têm menor atenção e podem atingir mais facilmente motociclistas, parcela vulnerável da circulação urbana e representada em grande parte por entregadores que enfrentam jornadas precárias.
Embora o levantamento não discrimine quantos das vítimas eram motociclistas, estudo do Ipea divulgado em 2025 mostrou que 40% das mortes no trânsito em 2023 foram de ocupantes de motos. O Cisa também destaca desigualdades regionais: 18 estados registraram taxas acima da média nacional, com Tocantins, Piauí e Mato Grosso entre os piores índices.
A predominância das vítimas entre homens é marcante: 86,7% dos óbitos e 81,8% das internações relacionadas ao álcool no trânsito ocorreram com a população masculina, segundo o estudo. Especialistas afirmam que intervenções precisam ser dirigidas a esse público. “É preciso intensificar fiscalização, acesso a atendimento de emergência e campanhas de prevenção que alcancem especificamente homens jovens e de meia-idade”, diz Mariana.
Para o diretor científico da Abramet, Flávio Adura, o álcool não só aumenta a probabilidade de acidente como eleva a gravidade das lesões. “Quem dirige alcoolizado tem percepção e tempo de reação reduzidos, toma decisões mais arriscadas e, em caso de colisão, tem maior chance de sofrer ferimentos graves”, explica.
Estados com maior fiscalização relatam aumento nas autuações, o que pode indicar tanto mais casos quanto mais eficiência na detecção. Em São Paulo, que tem uma das menores taxas entre as unidades federativas, o número de operações para flagrar motoristas embriagados mais do que dobrou recentemente. Em 2025 o Detran-SP realizou 1.272 blitze — ante 565 no ano anterior — e registrou cerca de 20 mil autuações por alcoolemia, contra 12,8 mil no ano anterior.
A legislação brasileira prevê sanções rigorosas: dirigir sob influência de álcool é infração gravíssima, com multa e suspensão do direito de dirigir; níveis iguais ou superiores a 0,34 mg/l no exame de ar alveolar configuram crime, passível de detenção. A recusa ao bafômetro também traz penalidades, que variam conforme sinais de alteração na condução.
Para reduzir a taxa de mortes, o Cisa e especialistas defendem ações integradas: manter a fiscalização, ampliar campanhas educativas, melhorar sistemas de resposta pré-hospitalar e adotar políticas específicas para motos e entregadores. “A Lei Seca já salvou vidas, mas precisa ser complementada por educação, tecnologia e fiscalização eficiente para enfrentar os novos desafios da mobilidade”, conclui Mariana.
A Senatran informou que mantém agenda permanente de ações educativas, de conscientização e de fiscalização em âmbito nacional, articulada com os órgãos do Sistema Nacional de Trânsito.
Você tem WhatsApp? Entre em um dos canais de comunicação do JORNAL DO VALE para receber, em primeira mão, nossas principais notícias e reportagens, clique aqui
JORNAL DO VALE – Muito mais que um jornal, desde 1975 – www.jornaldovale.com
Siga nosso Instagram – @jornaldovale_ceres
Envie fotos, vídeos, denúncias e reclamações para a redação do JORNAL DO VALE, através do WhatsApp (62) 98504-9192










































