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opinião

Quando o trabalho adoece

Exaustão emocional, distanciamento afetivo e queda de desempenho não são falhas individuais. São, antes de tudo, sintomas de estruturas que adoeceram.
Marilene Martins, psicóloga, especialista em psicoterapia e mestre em Psicologia.. Foto: Divulgação

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Dados recentes do INSS revelam um retrato preocupante para o Brasil: entre as profissões com mais afastamentos por transtornos mentais estão profissionais da saúde, professores, trabalhadores de call center, bancários e profissionais de segurança. Burnout, depressão e ansiedade aparecem como consequências de rotinas marcadas por sobrecarga emocional, metas rígidas, jornadas extenuantes e exposição constante ao risco. E difícil não se reconhecer ou lembrar de alguém próximo nesse cenário que eu descrevo.

O que essas profissões têm em comum? Todas lidam diariamente com pressão intensa e responsabilidade sobre vidas, resultados ou segurança. Exigem atenção permanente, rapidez nas decisões, controle emocional e, muitas vezes, enfrentamento de situações-limite. Há um elemento central que as conecta: o contato humano sob tensão.

Quando essa tensão deixa de ser pontual e se torna permanente, corpo e mente pagam o preço.

Culturas organizacionais tóxicas, marcadas por metas inatingiveis, cobranças desproporcionais, falta de reconhecimento, comunicação violenta e assédio, criam ambientes onde o medo substitui o sentido. A cultura do medo faz parte não apenas de grandes empresas, mas também aparece em pequenas organizações. O trabalho, que deveria ser espaço de realização e contribuição social, passa a ser fonte de sofrimento.

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O burnout, hoje reconhecido como fenômeno ocupacional, não surge do nada. É fruto de sistemas que normalizam a exaustão como prova de comprometimento. Exaustão emocional, distanciamento afetivo e queda de desempenho não são falhas individuais. São, antes de tudo, sintomas de estruturas que adoeceram. E raramente atingem apenas uma pessoa: quando o ambiente é tóxico, o adoecimento tende a se espalhar.

Esse cenário impacta toda a sociedade

Profissionais adoecidos não conseguem exercer plenamente seu papel social. A qualidade do cuidado na saúde, da educação, do atendimento ao publico, da segurança e dos serviços financeiros é diretamente afetada. O custo humano é imenso para suas relações pessoais, assim como o custo social e econômico também.

Nesse contexto, a atualização da NR-1, que passa a valer este ano, representa um avanço importante ao reforçar a obrigatoriedade de identificação e gestão dos riscos psicossociais no trabalho. Ao reconhecer que pressão excessiva, assédio e sobrecarga são riscos ocupacionais, a norma desloca o debate do campo individual para o organizacional. Não se trata de “fragilidade” do trabalhador, mas de responsabilidade compartilhada na construção de ambientes saudáveis.

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A transformação começa quando empresas e instituições compreendem que produtividade sustentável nasce de ambientes seguros, respeitosos e humanizados. Escuta ativa, metas realistas, lideranças preparadas e políticas claras de prevenção ao assédio e promoção da saúde mental não são benefícios extras, são requisitos éticos essenciais.

O trabalho deve construir identidade, propósito e dignidade. Se está destruindo, algo está errado na forma como está organizado. Cuidar da saúde mental no trabalho é, antes de tudo, cuidar das pessoas e do futuro coletivo que estamos construindo. Nenhuma profissão deveria adoecer quem a exerce. Mas, se isso acontece, é dever das organizações prevenir, acolher e transformar.

Marilene Martins, psicóloga, especialista em psicoterapia e mestre em Psicologia. Diretora do Habiens Instituto de Psicologia

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