Há 30 anos, na noite do dia 21 de abril, o Brasil recebia o impacto final de 38 dias de agonia. Primeiro presidente civil após 21 anos de ditadura, Tancredo Neves morreu sem tomar posse, após ter retirado um tumor no intestino e ter sido submetido a cinco cirurgias. Faleceu no mesmo dia em que o mártir Tiradentes. Como Moisés, que conduziu os hebreus à Terra Prometida sem dela chegar a usufruir, ele foi instrumento da travessia entre o governo militar e a redemocratização.
Narigudo, feioso, contido, matreiro, Tancredo era o tipo de político sem maior carisma televisivo, mas de imensa capacidade de conciliação. Marcava presença nos bastidores da vida política do Brasil desde os tempos de Getúlio Vargas, de quem foi Ministro da Justiça e a quem deu suporte até o fim. Como primeiro ministro do parlamentarismo estabelecido após a renúncia de Jânio Quadros, ele ajudou João Goulart a tomar posse e adiou, embora por pouco tempo, o golpe de 1964. Membro do antigo MDB, Tancredo combateu a ditadura de forma moderada, mas constante, e mesmo pertencendo à oposição, conseguia dialogar com os militares. “Tancredo ocupava o centro, onde se empurra o processo histórico. Ele era a única solução que tínhamos para fazer a redemocratização de forma pacífica, sem derramamento de sangue”, relembra Roberto Magalhães, na época governador eleito de Pernambuco.
Após o movimento pelas Diretas ter sido derrotado, em 1984, e dos militares terem estabelecido a escolha indireta para a presidência, Tancredo conseguiu mobilizar parte de seus antigos opositores do PDS para, através da chamada Frente Liberal (embrião do futuro PFL), viabilizar a candidatura vitoriosa do mineiro, eleito com mais de 70% dos votos do Colégio Eleitoral. Seu opositor era Paulo Maluf, cuja má-fama entre os próprios correligionários do PDS provocou um “racha” no partido.
“Tancredo foi uma figura muito importante na Nova República. Não votei nele, fui o único do PMDB que não fez isso e depois fiz uma autocrítica, porque não era possível que todo o País estivesse errado e apenas eu, certo”, confessa o deputado Jarbas Vasconcelos, que descreve Tancredo como “um político de alta grife que deixou um legado de honradez”. Já Roberto Magalhães diz ter sofrido as consequências políticas de seu apoio a Tancredo nas eleições de 1986, quando os candidatos ligados a Miguel Arraes se fortaleceram e venceram em Pernambuco. “Entregamos o poder aos adversários. O Brasil precisava disso e, absolutamente, não me arrependo, porque não vejo quem, no lugar de Tancredo, poderia ter conquistado a confiança de todos no País”, destaca.
Esta capacidade de liderança é apontada com saudade por quem presencia a atual crise política brasileira. “Carisma é atributo de profetas, não é uma questão de se buscar um salvador da Pátria. Mas falta hoje uma liderança com a imantação de Tancredo, a percepção que ele tinha da conjuntura política, de fazer um governo de concertação e não de cooptação”, considera Gustavo Krause, que conviveu com Tancredo a partir da campanha pelas Diretas, como vice de Roberto Magalhães. “Hoje, não temos quem seja capaz de trabalhar em cima de consensos mínimos, de estabelecer uma agenda de reformas estruturais”, aponta.
APOIO DO NORDESTE
Como governador de Minas, que integra o território semiárido, Tancredo estava sempre presente nas reuniões da Sudene e tinha, por isso, muito contato com os governadores nordestinos. Como, em 1982, o PDS elegeu todos os governadores da região, eles acabaram se tornando um grupo ainda mais coeso que, ao fim, com exceção da Paraíba, optou por apoiar o candidato mineiro, mesmo este pertencendo a um partido de oposição. “O neto dele, Aécio Neves, me disse mais de uma vez que, se não fosse o apoio dos nordestinos, Tancredo não teria se lançado candidato”, revela Roberto Magalhães.
Embora com menor dimensão, se comparado a outros Estados, Pernambuco teve grande importância dentro do movimentos pelas Diretas. Foi aqui, em 1983, no recém-criado município de Abreu e Lima, que ocorreu a primeira manifestação pública nesse sentido. Assim, ao longo de 1984, Tancredo, junto com Ulysses Guimarães e outros líderes de todo o País, estiveram no Recife para participar de atos como um comício na praia de Boa Viagem. Depois, com a criação da Aliança Democrática e antes, durante e após a oficialização da chapa Tancredo-Sarney, muitas “costuras” foram realizadas.
A lei eleitoral daquela época não permitia coligações partidárias e nem a troca de partido, após a eleição. Depois da morte de Tancredo, surgiram versões de que ele gostaria de ter tido outros vices em sua chapa, no lugar de José Sarney. Um dos nomes apontados seria o do empresário Antonio Ermírio de Moraes. Roberto Magalhães, porém, relata uma curiosidade que não pode ser confimada pelos envolvidos – nem por Tancredo, nem por Marco Maciel, atualmente adoentado e afastado da vida política. Segundo ele, o “candidato que Tancredo queria” era Marco Maciel. “Acompanhei isso de perto”, frisa.
Só que Maciel, eleito senador pelo PDS, poderia perder o cargo caso mudasse para o PMDB, e preferiu não arriscar. “Era uma decisão da alta cúpula. Acabaram optando por Sarney, que vinha da extinta Arena e não podia ser acusado de infidelidade partidária. Ninguém poderia prever a tragédia. Mas, o fato é que se Marco Maciel tivesse sido presidente, o Brasil e Pernambuco estariam bem melhor. Nós perdemos esta chance”, lamenta Magalhães.
Agência Estado










































