O Departamento de Estado dos Estados Unidos publicou, nesta terça-feira (11), um vídeo em defesa da Doutrina Monroe e declarou que o domínio norte-americano sobre o Hemisfério Ocidental “nunca mais será questionado”. A mensagem foi interpretada por analistas como um recado de força à América Latina e, especialmente, ao Brasil.
Com pouco mais de cinco minutos, a gravação apresenta um histórico da política externa dos Estados Unidos desde o século 19. A Doutrina Monroe foi formulada em 1823 pelo então presidente James Monroe e defendia que qualquer tentativa de recolonização ou interferência de potências estrangeiras nas Américas seria considerada uma ameaça aos interesses norte-americanos.
“A Doutrina Monroe moldou a política externa dos EUA por mais de dois séculos. O domínio americano no Hemisfério Ocidental nunca mais será questionado”, afirma a legenda publicada pelo Departamento de Estado.
Referência à Venezuela
O vídeo cita a captura do ex-ditador venezuelano Nicolás Maduro, ocorrida em 3 de janeiro, como o exemplo mais recente da aplicação da doutrina. Segundo a gravação, a operação teria enviado um “forte sinal a todo o hemisfério”.
Maduro foi levado para os Estados Unidos, onde responde a acusações de narcoterrorismo e permanece detido em uma penitenciária de Nova York, de acordo com as informações apresentadas na publicação.
A produção também menciona a atuação dos Estados Unidos no Panamá, a construção e o controle do Canal do Panamá e a crise dos mísseis de Cuba, em 1962. O conteúdo, porém, não faz referência às intervenções norte-americanas que contribuíram para a instalação ou manutenção de regimes autoritários em países latino-americanos ao longo do século 20.
Brasil no centro da disputa
A publicação ocorre em um momento de intensificação da influência norte-americana na América Latina e de disputa geopolítica com a China. Documento divulgado pela Casa Branca em dezembro de 2025 indicou que o governo de Donald Trump pretende ampliar a presença militar e estratégica dos Estados Unidos no Hemisfério Ocidental.
Entre os objetivos apontados estão o reforço da presença da Guarda Costeira e da Marinha, o combate ao tráfico de drogas e de pessoas e a ampliação do acesso a áreas consideradas estratégicas na região. A estratégia também prevê a retomada da Doutrina Monroe como instrumento para conter o avanço chinês.
A equipe do presidente Luiz Inácio Lula da Silva avalia que o Brasil seria o principal alvo dessa política de influência. Assessores do governo interpretaram o vídeo como parte de uma estratégia do secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, para ampliar a presença de governos alinhados à direita na América do Sul e pressionar a política brasileira.
Segundo interlocutores de Lula ouvidos pelo blog do jornalista Valdo Cruz, a aproximação entre Rubio e integrantes da família Bolsonaro faria parte desse movimento. A avaliação é de que o Brasil representaria a principal peça ainda não alinhada ao projeto de influência defendido por Washington na região.
Analistas falam em “declaração de guerra”
O comentarista Ricardo Kotscho classificou a publicação como uma “verdadeira declaração de guerra” durante o programa UOL News. Para ele, a mensagem do governo norte-americano representa uma ameaça política e estratégica aos países latino-americanos, ao reafirmar que Washington considera o continente parte de sua área de predominância.
Outra análise apontou que o vídeo pode ser interpretado como uma ameaça ou uma tentativa de intimidação, principalmente por ter sido divulgado próximo ao calendário eleitoral brasileiro. A avaliação, contudo, não significa que os Estados Unidos tenham declarado guerra formal ao Brasil.
Na prática, o conteúdo reforça uma postura de hegemonia regional e sinaliza que o governo Trump pretende tratar a América Latina como prioridade de segurança nacional. O uso da expressão “domínio” também gerou críticas por remeter à ideia de que os países do continente estariam submetidos à influência política e militar dos Estados Unidos.
Reação e possíveis consequências
Até o momento, não há indicação de que o vídeo represente uma ordem militar contra o Brasil ou uma declaração formal de conflito. A principal preocupação entre os analistas é o risco de aumento da pressão diplomática, econômica e política sobre governos que mantêm relações próximas com a China ou adotam posições independentes em relação a Washington.
Para o Brasil, a mensagem pode ampliar as tensões envolvendo soberania, comércio exterior, relações com os Brics e a disputa pela influência política na América do Sul. O vídeo também deve alimentar o debate sobre eventual interferência estrangeira nas eleições brasileiras e sobre a aproximação de setores da direita nacional com o governo norte-americano.
A publicação do Departamento de Estado, portanto, é vista menos como uma declaração de guerra no sentido literal e mais como uma demonstração pública de poder. Ao resgatar a Doutrina Monroe e afirmar que a hegemonia dos Estados Unidos não será questionada, Washington envia um aviso de que pretende recuperar espaço e limitar a atuação de potências rivais no continente.
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