Três décadas após a rebelião que paralisou o então Centro de Atividades Industriais do Estado de Goiás (Cepaigo), autoridades feitas reféns durante o episódio ainda lembram com nitidez os dias de tensão, ameaça e incerteza vividos dentro da unidade prisional.
Entre os sequestrados estava o então juiz Gilberto Marques Filho, hoje desembargador, que só conseguiu avisar a esposa sobre sua localização depois de ser levado por presos até Cuiabá, no Mato Grosso. Ao sussurrar o nome da cidade em um orelhão, ele aproveitou um instante de distração do sequestrador. Naquele momento, era o último refém ainda em poder do grupo que fugia após o início da crise.
A rebelião começou em 28 de março de 1996, durante uma visita de uma comitiva de autoridades ao presídio, em Aparecida de Goiânia. O grupo havia ido ao local para discutir denúncias de presos com penas vencidas e avaliar a situação da unidade, então comandada pelo coronel Nicola Limongi Filho.
Participavam da inspeção o então presidente do Tribunal de Justiça de Goiás, Homero Sabino, o filho dele, Aldo Sabino, além de Renata Cheim, Haroldo Caetano e Fábio Cristóvão. O clima, segundo os relatos, era inicialmente de rotina. Depois do café da manhã, os visitantes seguiram pelas alas da penitenciária até chegarem à área de maior risco.
Foi nesse ponto que a situação fugiu do controle. Presos de outro setor cercaram o grupo e impediram a saída. Segundo os reféns, o fechamento do portão foi o estopim para a rebelião. “Ali já havia um ambiente muito tenso”, relembrou Aldo Sabino.
Marques contou que tentou ajudar na contenção ao lado de um policial, mas os presos reagiram com facas e força numérica superior. A partir dali, a comitiva passou a ser mantida sob ameaça dentro das celas.
Durante os dias seguintes, o grupo viveu sob medo constante. Parte dos detentos queria matar o diretor da unidade, e o próprio Marques chegou a receber ameaças de morte. Segundo ele, Leonardo Pareja teve papel decisivo ao conter os ânimos e evitar assassinatos entre os reféns.
Pareja, que já havia ganhado notoriedade no ano anterior após um sequestro em Feira de Santana, acabou se tornando uma espécie de liderança informal entre os rebelados. Sua influência, segundo os depoimentos, foi fundamental para o controle interno do grupo.
Homero Sabino também foi alvo de pressão psicológica. Aldo relata que um preso passou quase dois dias intimidando o então presidente do TJ-GO, relatando crimes cometidos e fazendo perguntas sobre condenação e perdão. O sofrimento era agravado pela sensação de culpa por ter levado o filho junto à comitiva.
Renata Cheim foi uma das poucas mulheres sequestradas e acabou sendo liberada ainda no primeiro dia. Ela contou que temia sofrer violência sexual, mas disse que, apesar das piadas, os presos não permitiram abusos. Sua saída do presídio, no entanto, foi marcada por tensão: ela atravessou um pátio com centenas de detentos soltos antes de conseguir deixar a unidade.
Haroldo Caetano, que lança neste sábado um livro sobre sua experiência na rebelião, descreve em sua obra um dos momentos mais aterrorizantes do episódio. Em um dos trechos, relembra a ameaça feita por um preso encapuzado à porta da cela, em tom frio e direto, que o fez acreditar que não sobreviveria àquela noite.
Fábio Cristóvão afirmou que aquela foi sua primeira e última visita ao Cepaigo. Já Cheim diz que o sistema prisional mudou muito desde então. Aldo Sabino também voltou à unidade em inspeções mais recentes e avalia que o cenário atual é mais controlado e menos propenso a uma nova crise daquela dimensão.
A direção da Polícia Penal afirma que a antiga estrutura do Cepaigo, hoje Penitenciária Coronel Odenir Guimarães, passou por mudanças profundas e que a gestão atual impede a repetição de situações como a de 1996. Para a corporação, a profissionalização da segurança e as reformas estruturais tornaram aquele episódio praticamente inimaginável hoje.
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