O sonho de morar na Europa e ganhar salários em euros levou pelo menos 33 mulheres do Rio Grande do Norte para a Itália entre os anos de 2006 e 2009. Ao embarcar para um emprego como dançarina em casas de shows europeias, no entanto, elas se tornaram escravas sexuais num esquema ítalo-brasileiro que fazia as jovens viajarem endividadas para serem exploradas sexualmente.
O pivô dessa operação no Brasil era, segundo o Ministério Público Federal (MPF), o advogado Pedro Paulo de Andrade Netto, 57, então presidente do Sindicato dos Artistas do Rio Grande do Norte.
O UOL entrou em contato com Netto por meio de ligações telefônicas e envio de mensagens pelo WhatsApp durante uma semana, mas até a publicação deste texto ele não se pronunciou sobre o assunto.
Ele usava seu cargo para recrutar mulheres bonitas, segundo a investigação. O MPF afirma que ele recebia, na época, 200 euros (cerca de R$ 725 em valores atuais) por cada mulher enviada para Itália e entre 5 e 20 euros por dia de trabalho delas no exterior.
A jovem Ana* foi uma das vítimas. Ela frequentou cursos de modelo e manequim, além de aulas de dança e de teatro por oito meses em uma agência que pertencia a Netto até receber a proposta para viajar. Mas, ao chegar à casa de shows onde se apresentaria na Itália com um grupo de danças folclóricas e samba, se sentiu enganada.
“Todas nós achamos que era só o trabalho de dançarina. Eu não achei que ia ver o que eu vi acontecendo: as garotas saindo (com homens para se prostituírem). Eu questionei na época e me explicaram o que era”, disse ela posteriormente à Justiça.
Encontros íntimos em público
Bruna* passou por um choque semelhante. A boate Morgana não tinha quartos para encontros íntimos. Funcionários estendiam cortinas em volta das mesas dos “clientes” para que eles mantivessem relações sexuais com as garotas de programa em mesas ou cadeiras no meio do salão.
“As relações sexuais aconteciam na frente de todo mundo, só colocavam um pano”, afirmou Bruna.
Os funcionários da boate diziam que os espaços eram para que seus clientes mantivessem conversas privadas – a um custo de 20 euros por minuto. Mas, na prática, eram uma alternativa para as jovens “atenderem” clientes sem sair do estabelecimento.
Muitas mulheres usavam essa opção para não pagar um “pedágio” para os aliciadores a fim de obter permissão de levar o “cliente” para outro local, fora da boate. A chamada “serata” custava às garotas entre 200 e 300 euros.
Dívidas
As vítimas tentavam economizar a maior quantidade de dinheiro possível para pagar seus aliciadores. Os criminosos afirmavam que elas tinham que quitar dívidas da viagem e da estadia na Itália.
“Elas sabiam que teriam uma dívida com os aliciadores, oriunda das passagens e outras despesas, mas a maior parte delas só soube do valor da dívida ao chegar na Itália”, disse o procurador do MPF Kleber Martins de Araújo.
Bruna disse que tinha que pagar pelo aluguel de um apartamento que dividia com três garotas, e também por uma “taxa de uso” dos prostíbulos e pela passagem aérea, além de custear seus gastos com alimentação. Segundo ela, o dinheiro que recebia como “salário” na boate era menor que o combinado no Brasil e nunca suficiente para pagar as dívidas.
Uol














































