Com o segundo esquema descoberto em menos de um ano, pelo menos 67 alunos foram beneficiados com fraudes em vestibulares para Medicina, em Goiás. De acordo com a Polícia Civil, a organização criminosa desmantelada na quinta-feira fraudou 11 processos seletivos de faculdade goiana e de Estados vizinhos, tendo movimentado aproximadamente R$ 5 milhões em dez meses. No entanto, grupo atuaria há mais de 10 anos.
As investigações da Operação Monge (apelido de um rapaz de Recife que estudava para o vestibular de medicina, mas suicidou-se diante da pressão), começaram depois que a Universidade de Rio Verde (UniRV) denunciou o aliciamento. O reitor da instituição, Sebastião Lázaro Pereira, narra que o pai de uma estudante de curso pré-vestibular procurou a faculdade para relatar a oferta.
“Nas averiguações, identificamos mais de 110 alunos que fraudaram as provas nas instituições: UniRV, campi Goianesia e Aparecida de Goiânia, Unifenas, em Belo Horizonte e Alfenas, Universidade Católica de Brasília (UCB) e também na Faciplan”, diz o delegado Cleybio Januário Ferreira, da unidade Estadual de Repressão às Ações Criminosas Organizadas (Draco).
Dos 110 alunos, 52 já estão matriculados nas instituições, e outros 15 se registrariam na UniRV, na próxima semana. Os 43 restantes não teriam se beneficiado do esquema. Segundo a Polícia Civil, os candidatos eram naturais de vários Estados, mas principalmente de Goiás e Minas Gerais.
O grupo garantia a aprovação nas provas objetivas. Ao candidato, cabia resolver a avaliação de redação. Caso não fosse aprovado no vestibular, o candidato não precisava pagar e poderia continuar tentando.
Primeiramente foram apontados nove integrantes na organização criminosa e cinco deles foram presos: o líder do grupo, Rogério Cardoso de Matos, os aliciadores Osmar Pereira Evangelista Filho, Fernando Batista Pereira, que também atuava como negociador e mensageiro, além da mensageira Elisangela Nunes Borges e o piloto Matheus Ovídio Siqueira. Matheus, Elisangela e Osmar foram liberados. Com eles, a polícia apreendeu R$ 150 mil e 6 carros de luxo. Outros quatro membros estão foragidos.
Esquema
O esquema tinha início assim que o candidato era aliciado por meio de redes sociais na internet e aplicativos de celular ou ainda nas conversas entre os estudantes com o discurso sobre uma aprovação fácil no vestibular para medicina. Por cada pessoa, o aliciador recebia R$ 10 mil. O candidato que aceitasse integrar o esquema pagava entre R$ 80 e R$ 90 mil, ao fazer a matrícula.
Os pilotos eram responsáveis por resolver a prova. Matheus, estudante de engenharia civil da Universidade Federal de Goiás (UFG), respondia as provas de exatas. Outro piloto, as de humanas. Por cada certame, Matheus recebia entre R$ 15 e R$ 20 mil, afirma o investigador.
Após a resolução, as respostas eram enviadas aos mensageiros que repassavam aos candidatos. As mensagens eram recebidas em celulares que estavam escondidos nas roupas íntimas. Em uma gravação da polícia, Fernando aparece orientando o uso de, pelo menos, três peças de roupa íntima para conseguir entrar com o aparelho telefônico.
Durante as investigações, a polícia se passou por fiscais de um dos certames e acompanhou a movimentação de Matheus. O rapaz resolveu a prova em 30 minutos. O delegado pontua que não foram identificadas evidências de participação de servidores ou fiscais.
Foram investigados os certames realizados desde setembro de 2016 até o mês de junho de 2017. Entretanto, em relatos dos próprios suspeitos, o grupo atuava há mais de dez anos. “Antes de 2011, a legislação não contava com o crime de fraude no certame de interesse público. Da organização, aqueles que já foram presos anteriormente à essa data, foram absolvidos em instâncias superiores”, explica. O esquema era realizado apenas para o curso de medicina.
Suposto aliciador já havia sido preso em operação de 2015
Um dos foragidos da operação Monge, realizada pela Polícia Civil, que desarticulou uma organização criminosa que fraudava vestibulares de medicina em instituições particulares já foi detido pela Polícia Federal, em 2015.
Rodolfo Gomes Matos, que atua como aliciador e negociador no esquema desmantelado esta semana, foi um dos quatro presos na Operação Gabarito, sob a suspeita de fraude no vestibular da Pontifícia Universidade Católica de Goiás (PUC-GO) e no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem).
De acordo com a PF, os detidos faziam as provas para terem acesso ao conteúdo das avaliações da prova de medicina e repassar as informações ao restante da associação criminosa. O caso está em tramitação na Justiça Federal.
Sobretudo, a Polícia Civil relatou que Rodolfo foi expulso da instituição, mas depois conseguiu retornar. Porém, acabou mudando de curso e estaria planejando ir para o Rio de Janeiro para onde teria transferido os estudos.
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