No tempo em que as moedas eram de metais preciosos, como platina e ouro, uma das maiores pragas do dinheiro era a lixa. Isso mesmo. A lixa. Algo muito parecido com esse artefato que se usa para fazer o acabamento fino das unhas. E a maioria dos lixamentos acontecia exatamente no interior das instituições às quais se atribuía a obrigação de proteger as moedas: os bancos.
Ao entrar no banco, as moedas eram lixadas por especialistas, uma a uma, retirando um pozinho da cara, da coroa e do perímetro, de tal forma que ela ficasse com aparência de novinha em folha. O banco alegava zelar pela conservação do metal, evitando zinabres ou quaisquer outros fatores que pudessem desfigurar as moedas ao longo do tempo. Com essa desculpa, tirava suas lasquinhas e, quando as moedas começavam a se desfigurar, de tanto serem raspadas, o banqueiro tinha um método infalível de remoldá-las, do jeito que os borracheiros fazem com os pneus carecas, de tal modo que, apesar de ter seu peso subtraído, a aparência (os símbolos e as efígies) das moedas permanecia faiscando, com um jeitinho de nova e original.
No final de cada expediente, o banqueiro detinha em seu poder mais ouro ou prata do que muitos mineradores de grande porte, sem enfrentar os riscos das terras distantes, suas feras, suas malárias, suas intempéries e seus habitantes hostis, além dos piratas nas travessias dos oceanos.
Em economias mais modernas, outra ameaça semelhante e mais sofisticada passou a corroer as moedas. A tal inflação. Com ela, grande parte da potência econômica de uma pessoa, ou de um país, é transferida para outros, sutilmente, na surdina, e assim, quem domina esse processo pode pagar dívidas ou amealhar fortunas, sem ter de efetivamente trabalhar ou produzir algum bem.
Não consegui ainda ter uma visão clara das coisas, mas tenho a desconfiança firmada de que existe uma entidade, talvez transcendente, que se interesse por toda energia gerada pela potência do dinheiro. Ou, quem sabe, seja imanente, constituída pelo somatório de todos os egos espalhados pela terra. Um monstro fenomenal e insaciável. Quem sabe manipular essa força em seu favor acaba por constituir riquezas monumentais. Nós, meros trabalhadores e contribuintes, em última instância, não passamos de cabo de força por onde transita essa energia monetária. Tudo o que conseguimos ganhar com a energia do suor de nosso rosto mal chega ao fim do mês para honrar o compromisso de nossas contas. À medida que o dinheiro entra de um lado, sai pelo outro, com energia apenas para aplacar o ânimo voraz dos boletos. Somos apenas o fio por onde a energia do dinheiro passa para ir empoçar-se nas mãos de quem detém o controle do sistema.
O processo de lixamento, a cada dia, avança com mais eficiência e voracidade. Se em períodos anteriores, a moeda era lixada, ou carcomida pela inflação, deixando seus resíduos valorosos nas mãos dos banqueiros ladinos, o que se lixa, hoje, é cada um de nós. Estamos ligados, por wi-fi, bluetooth ou USB a uma aranha global que, o tempo todo está nos lixando. Cada live, cada like, cada hate, cada mensagem, cada visualização que a grande aranha nos proporciona com sua teia, é uma lasquinha, uma poeira de nossa energia monetária que se transfere de nossa potência vital, convertida em energia monetária, para os grandes dominadores do sistema.
O processo tem se mostrado tão eficiente que, em tempo algum da história houve riquezas tão monumentais como as de hoje em dia. A Bíblia garante-nos que o rei Salomão foi o homem mais rico, potente e poderoso de seu tempo. Certamente, se ricaço bíblico fosse transposto para o presente e confrontado com os magnatas das big techs, não passaria de um pobretão metido a rico.
Salomão tinha até o poder de escravizar os trabalhadores de sua gente, mas não sabia lixar cada um em particular, e ainda deixar todos com a sensação de pessoas livres.
Edival Lourenço é escritor
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