A polilaminina, molécula desenvolvida por pesquisadores da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) para tratar lesões medulares, ganhou destaque na mídia e gerou otimismo entre pacientes e familiares. No entanto, entidades como a Academia Brasileira de Neurologia (ABN) e a Sociedade Brasileira de Neurocirurgia (SBN) pedem cautela: sem etapas rigorosas de pesquisa clínica, não há garantia de eficácia ou segurança.
Produzida em laboratório a partir da laminina — proteína natural que conecta neurônios —, a substância baseia-se em um estudo piloto com oito voluntários. Seis mostraram melhoras motoras, e um voltou a andar. Apesar do entusiasmo, especialistas enfatizam que resultados preliminares não equivalem a comprovação científica.
O desenvolvimento de remédios segue protocolos internacionais, como a Declaração de Helsinque, divididos em fases: a 1 avalia segurança e doses toleráveis; a 2 testa eficácia em mais participantes; e a 3 compara em larga escala. Para a polilaminina, a fase 1 em humanos começa só em março de 2026. Aplicações atuais, muitas via judicialização, ocorrem fora de protocolos formais, gerando preocupações.
Críticas incluem a falta de grupo controle no piloto da UFRJ — essencial para isolar o efeito da molécula de recuperações espontâneas, como no choque medular. Além disso, os dados estão em pré-print, sem revisão por pares. O neurocirurgião Guilherme Lepski alerta para barreiras biológicas, como fatores NoGo, que inibem a regeneração neuronal.
A cautela científica não visa atacar os pesquisadores, mas proteger pacientes com método e validação. Antecipar resultados pode comprometer a pesquisa.
O espectro da fosfoetanolamina paira sobre a polilaminina
O caso lembra a fosfoetanolamina, a “pílula do câncer” liberada em 2016 por lei, sem testes da Anvisa. Desenvolvida na USP São Carlos, foi distribuída sem comprovação, levando pacientes a abandonarem tratamentos eficazes. Estudos posteriores do Inca e Ministério da Ciência confirmaram sua ineficácia. O STF derrubou a norma, reforçando a necessidade de evidências.
Hoje, judicializações precoces para polilaminina repetem o padrão, podendo interferir nos ensaios. Especialistas defendem o rigor — grupos controle, estatística e revisão por pares — para evitar riscos e preservar a credibilidade científica.
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