Quase 90 anos depois de perder o status de capital para Goiânia, a Cidade de Goiás reapareceu nos corredores do poder estadual com um movimento para obter compensação financeira pelas perdas causadas pela transferência da sede administrativa em 1937. A articulação ganhou força após reuniões entre o prefeito Aderson Gouvea (PT), o presidente da Assembleia Legislativa, Bruno Peixoto (UB), e deputados estaduais, e recebeu o aval do governador Daniel Vilela (MDB).
Lideranças locais e parlamentares anunciaram a criação de um Grupo de Trabalho (GT) que ficará responsável por elaborar o projeto de lei. A proposta, se aprovada, pode representar uma das mais simbólicas reparações da história política do estado, segundo seus defensores.
Reivindicação com raízes históricas
A mudança da capital para Goiânia foi apresentada na época como um símbolo de modernização, mas trouxe consequências profundas para a antiga sede do governo. Além da transferência de órgãos públicos, migraram investimentos, empregos e instituições de ensino – elementos que sustentavam a economia local. Autoridades que apoiam a iniciativa afirmam que dispositivos previstos na Constituição Estadual da época nunca foram efetivados.
“Quando houve a mudança da capital, as universidades, os órgãos públicos e o Liceu deixaram a cidade. Goiás ficou em uma situação muito difícil. O município sobreviveu graças ao amor que as pessoas sentem pela cidade de Goiás”, disse o prefeito Aderson Gouvea ao defender a mobilização.
Patrimônio e preservação
Enquanto Goiânia se consolidou como polo político e econômico, a Cidade de Goiás assumiu a função de guardiã da memória do estado. Tombada como Patrimônio Cultural da Humanidade pela UNESCO, a cidade mantém igrejas, casarões e tradições que exigem conservação contínua — um custo que, no entendimento de gestores e parlamentares, justifica a busca por compensação.
“A cidade de Goiás tem a missão de guardar a memória de todo o Estado. Nós não podemos esperar mais 100 anos ou 200 anos. Temos que fazer agora o que a sociedade precisa”, afirmou o prefeito.
Mobilização parlamentar e apoio do Executivo
O deputado Karlos Cabral (PSB) protocolou requerimento para criar a Frente Parlamentar de Compensação Financeira da Cidade de Goiás. A iniciativa pretende reunir representantes de diferentes partidos para ampliar o debate com especialistas, sociedade civil e governo estadual. Cabral lembra que um projeto com objetivos semelhantes chegou a tramitar na Assembleia nos anos 1930, sem avançar.
O governador Daniel Vilela autorizou a formação do GT, que reunirá membros do Executivo, da Assembleia e da prefeitura para formular uma proposta técnica e juridicamente viável. A ideia é definir mecanismos de compensação e os setores beneficiados.
Modelos adotados em outros estados
Parlamentares citaram precedentes em outros estados brasileiros como argumento de que a iniciativa é factível e legítima. Segundo o deputado Antônio Gomide (PT), casos em que antigas capitais receberam algum tipo de compensação mostram que a medida não seria inédita.
Possíveis destinos dos recursos
Ainda em fase de estruturação, a proposta não traz valores definidos. Fontes envolvidas na discussão apontam que eventuais recursos poderiam ser aplicados em preservação do patrimônio histórico, fomento ao turismo, obras de infraestrutura urbana e melhoria de acessos regionais — prioridades que também dialogam com as comemorações dos 300 anos da cidade.
Reparação simbólica
Para além do aspecto financeiro, o projeto tem forte componente simbólico: trata-se de reconhecer oficialmente impactos que transformaram a trajetória econômica e social da Cidade de Goiás. A criação da frente parlamentar e o comprometimento formal do governo elevam a reivindicação de uma demanda local a pauta institucional do estado.
Com o GT em formação e o debate em curso na Assembleia, a Cidade de Goiás tenta agora converter uma reivindicação centenária em política pública — um movimento que mistura justiça histórica, preservação cultural e políticas de desenvolvimento regional.
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