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Mães atípicas enfrentam estresse extremo e seguem sem apoio psicológico no Brasil

Enquanto o acesso a terapias e acompanhamento especializado para crianças com Transtorno do Espectro Autista (TEA) avança, uma realidade paralela segue invisível
Mães atípicas enfrentam estresse extremo e seguem sem apoio psicológico no Brasil. Foto: Reprodução

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A ausência de políticas públicas e rede de apoio empurra milhares de mães para um ciclo de sobrecarga extrema, com impactos diretos no corpo, no cérebro e na qualidade de vida

Enquanto o acesso a terapias e acompanhamento especializado para crianças com Transtorno do Espectro Autista (TEA) avança, uma realidade paralela segue invisível: a das mães que sustentam essa rotina intensa e, muitas vezes, adoecem sem qualquer tipo de suporte psicológico.

Aos 41 anos, Fernanda Cristina da Silva convive diariamente com esse cenário. Mãe de uma adolescente de 14 anos com autismo grau 3, ela reconhece que precisa de acompanhamento, mas não consegue priorizá-lo. “Eu sei que preciso de terapia. Todo mundo fala. Mas eu sempre priorizo ela”, conta.

Sem rede de apoio, a rotina é contínua e exaustiva. Fernanda concentra todas as responsabilidades: os cuidados com a filha, as demandas da casa e a atenção aos outros dois filhos. “Sou eu pra tudo: levar, buscar, médico, casa… não tem descanso”, relata. O tempo que sobra, quando existe, é consumido por tarefas acumuladas. “Quando eles estão na escola, é o tempo que eu tenho pra resolver problema. Não é pra mim.”

De acordo com especialistas, esse quadro ultrapassa o desgaste emocional. Trata-se de um processo fisiológico ligado ao estresse crônico. “Não estamos falando apenas de cansaço, mas de uma resposta do organismo a uma sobrecarga constante”, explica a psicóloga Caroline Dias, especialista em Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) e neuropsicologia. “Esse nível de estresse pode provocar alterações hormonais, inflamações e aumentar o risco de doenças físicas e transtornos mentais. ”

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Sob o olhar da neurociência, os efeitos são ainda mais profundos. A exposição prolongada ao estresse afeta diretamente o funcionamento do corpo e do cérebro, elevando os níveis de cortisol e provocando inflamação sistêmica, além de comprometer a capacidade de adaptação ao longo do tempo. “Esse processo indica níveis elevados de cortisol e, com o tempo, o eixo de comando do estresse entra em exaustão, reduzindo a capacidade de resposta do organismo. O resultado é um padrão biológico de estresse crônico semelhante ao observado em soldados em combate”, afirma Caroline Dias.

Os dados reforçam a gravidade do problema. Um estudo publicado em 2022 pela University of California, San Francisco (UCSF), que acompanhou mães ao longo de 18 meses, identificou que cerca de 50% das mães de crianças com autismo apresentam sintomas depressivos elevados — um índice significativamente maior do que o registrado entre mães de crianças sem o transtorno.

Apesar disso, o cuidado com a saúde mental dessas mulheres raramente é incorporado como parte essencial do tratamento.
No dia a dia, os efeitos já são evidentes. Fernanda relata episódios que revelam o nível de esgotamento. “Tem dia que eu vou ao mercado comprar duas coisas e volto sem nenhuma. Eu tô tão cansada que esqueço. Eu rio pra não chorar.”

Para a especialista, esse tipo de relato acende um alerta importante. “A sobrecarga emocional contínua, sem acompanhamento, pode evoluir para quadros mais graves, como ansiedade, depressão e até esgotamento extremo”, afirma.

Ainda assim, muitas mães permanecem presas a um ciclo silencioso: sabem que precisam de ajuda, mas não conseguem acessá-la. “Pra eu fazer terapia, teria que encaixar no horário da terapia dela. E nem sempre dá”, explica Fernanda.

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A lógica se repete em diferentes contextos: o cuidado com o filho sempre vem primeiro, enquanto a saúde mental da mãe é constantemente adiada. “A gente acha que a criança precisa mais. E precisa mesmo. Mas, se eu não estiver bem, nada funciona direito”, reconhece.

Sem suporte estruturado e com poucas políticas públicas voltadas a esse público, muitas mães recorrem a alternativas informais para lidar com a sobrecarga — seja no apoio indireto de profissionais que atendem os filhos, seja na fé, que, segundo Fernanda, “é o que sustenta”.

Diante desse cenário, especialistas defendem uma revisão urgente no modelo de atendimento ao TEA, com a inclusão das mães como parte central do cuidado. “Oferecer suporte psicológico para essas mulheres não é um complemento, é essencial para a saúde de toda a família”, reforça Caroline Dias.

Enquanto isso, o cenário expõe um paradoxo: mesmo com avanços no tratamento do autismo, quem sustenta toda essa estrutura segue, em grande parte, sem qualquer assistência. E a pergunta continua sem resposta: quem está cuidando da saúde mental dessas mães?

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