Opinião

O gosto amargo do vinho

Em 2016, com o golpe que culminou na queda da presidente Dilma Roussef e a ascensão de Michel Temer ao cargo, ganhou corpo a campanha contra a “velha senhora” CLT. Foi então proposta a denominada Reforma Trabalhista, anunciada como a solução de todos os nossos males apesar de, no entanto, não haver criado os 5 milhões de empregos prometidos, fracassando ainda em promover a anunciada formalização das relações de trabalho.

Publicados

Ronaldo Curado Fleury é advogado.

Em minha juventude, não tínhamos o hábito de beber vinho. A importação de boas garrafas era inviável para nossos parcos recursos, e os vinhos nacionais eram sofríveis. A curiosidade e o destemor próprios da adolescência me levaram a experimentar o que seria minha mais traumática lembrança de excesso na ingestão alcoólica: um porre do famoso Sangue de Boi. O impacto foi tão grande que, por anos, o simples cheiro de vinho me causava náuseas e eu cantava, sempre que me ofereciam, a canção de Chico Buarque que pedia para que o cálice de vinho fosse afastado de mim.

Nas últimas décadas, o direito do trabalho foi demonizado como sinônimo de atraso e de obstáculo para o desenvolvimento do país, o que se potencializou nos últimos seis anos como ressonância ao discurso único de triunfo do neoliberalismo sobre qualquer outra ideologia econômica que não tenha o individualismo e o império do deus mercado como o centro de poder.

Em 2016, com o golpe que culminou na queda da presidente Dilma Roussef e a ascensão de Michel Temer ao cargo, ganhou corpo a campanha contra a “velha senhora” CLT. Foi então proposta a denominada Reforma Trabalhista, anunciada como a solução de todos os nossos males apesar de, no entanto, não haver criado os 5 milhões de empregos prometidos, fracassando ainda em promover a anunciada formalização das relações de trabalho.

Entretanto, a reforma trabalhista ou a “modernização trabalhista” como gostavam de chamá-la seus defensores, trouxe benefícios apenas aos empregadores — aos maus empregadores — que viram diminuir o número de ações trabalhistas sem que diminuíssem as fraudes e minguar a força dos sindicatos com quedas nas arrecadações de cerca de 90%. O último governo ainda chegou a defender e propor o fim de qualquer regulação trabalhista. A balança que sempre pendeu para o capital abandonou de vez o trabalho. As fake news apresentavam mentiras como certezas como a que dizia estarem, no Brasil, 98% das ações trabalhistas de todo o mundo ou que inexiste legislação trabalhista nos Estados Unidos.

Leia Também:  A reforma da previdência deve ser revista? Sim!

Uma das mais graves heranças dessa sórdida campanha contra a CLT foi, sem dúvida, a liberalização da terceirização, que prometia mais empregos e melhores condições de trabalho e entregou exatamente o oposto. Alertamos, ainda em 2017, que 94% dos trabalhadores submetidos a condições análogas à escravidão resgatados eram terceirizados (cerca de 60 mil desde que se passaram a registrar os resgates, em 1995, segundo os dados expostos pelo Observatório Smartlab do Ministério Púbico do Trabalho e OIT).

Ainda assim, a maioria dos ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) optou por julgar constitucional a irrestrita terceirização, vigorosamente defendida por empresários, parlamentares e até por alguns magistrados do trabalho, supervalorizando o princípio da livre iniciativa empresarial em detrimento dos princípios do valor social do trabalho, da dignidade do trabalhador e da justiça social. Com isso, consolidou-se o entendimento de que é possível existir empresa sem empregados, apenas com terceirizados.

Há poucos dias, fomos surpreendidos com a notícia de que 207 trabalhadores —195 aliciados na Bahia — foram resgatados na lindíssima região serrana do Rio Grande do Sul, onde, além das abjetas condições de trabalho análogas à escravidão, eram submetidos a tortura mediante choques elétricos, spray de pimenta e espancamento. Ato contínuo, as três vinícolas envolvidas se apressaram em declarar que tais trabalhadores eram empregados de empresa terceirizada e que não tinham qualquer controle sobre eles.

Leia Também:  Lei 14.151: (Des)Regulamentação do afastamento presencial das gestantes

O argumento é exatamente o mesmo do utilizado por fazendeiros flagrados no interior do Maranhão, na mesma data, quando foram resgatados 17 trabalhadores e por quase a totalidade dos empresários flagrados submetendo trabalhadores a condições de trabalho análogas à escravidão. Na verdade, a terceirização somente se viabiliza pela diminuição dos custos e da responsabilidade para a empresa que toma os serviços.

Ao ler a notícia dos trabalhadores encontrados sob condições equiparáveis à escravidão na produção de enormes e lucrativas vinícolas nacionais, me veio ao estômago uma sensação de asco, agora causada pela revolta diante do ultraje imposto a esses trabalhadores brutalmente explorados e vilipendiados. Me pergunto, enfim, como se sentem os que defenderam o desmonte da legislação trabalhista e a liberalização da terceirização? Será que, como aquele jovem Ronaldo, o vinho lhes traz agora um sabor amargo?

Ronaldo Curado Fleury é advogado, subprocurador-geral do Trabalho aposentado, foi procurador-geral do Ministério Público do Trabalho.

JORNAL DO VALE – Muito mais que um jornal, desde 1975 – www.jornaldovale.com

Siga nosso Instagram – @jornaldovale_ceres

Envie fotos, vídeos, denúncias e reclamações para a redação do JORNAL DO VALE, através do WhatsApp (62) 98504-9192

COMENTE ABAIXO:
Propaganda

ARTIGO

Carisma e oratória: o caminho para o sucesso

No entanto, pelo fato de entender que carisma e oratória andam juntos, é difícil uma pessoa carismática ter uma oratória ruim, justamente porque conseguir se comunicar e conquistar quem está ao seu redor por meio da fala é uma das qualidades dos carismáticos. Por outro lado, existem casos de oratória prejudicada e a solução é simples: adicionando técnicas de comunicação e treino, conseguimos lapidar e fazer com que essa pessoa seja uma oradora.

Publicados

em

Fran Rorato é atriz, jornalista, especialista em comunicação e oratória.

Apesar de muitas pessoas acharem que são características distintas, costumo enquadrar o carisma dentro da oratória. Carisma é a capacidade de ser agradável, uma pessoa que tem entusiasmo, sorri com os olhos de forma sincera, possui escuta ativa e consegue se conectar falando o que o outro quer ouvir.  A oratória consegue reunir algumas técnicas para ajudar uma pessoa que não é tão carismática a se tornar uma ou melhorar nesse aspecto.

Uma pesquisa da Universidade de Toronto, no Canadá, chegou à conclusão, após estudar 1.000 participantes por um determinado período de tempo, que o carisma é uma mistura de afabilidade e influência. Eu acredito que aliado a isso, uma pessoa carismática de verdade é aquela que nunca tem medo de rir de si mesma, afinal, não são todos que apresentam tal habilidade de forma espontânea.

Nas minhas escolas, costumamos explorar o caráter interior e emocional, que é fundamental para que alguém se conheça por completo e possa trabalhar a sua oratória da melhor forma, o que vai ajudar a ter ainda mais carisma ou começar a desenvolvê-lo. É claro que existem pessoas mais e outras menos carismáticas, porém, é possível produzir carisma sem parecer falso, com naturalidade e respeitando a personalidade de cada um.

Leia Também:  Suspensão do crédito rural subsidiado expõe a necessidade de alternativas

No entanto, pelo fato de entender que carisma e oratória andam juntos, é difícil uma pessoa carismática ter uma oratória ruim, justamente porque conseguir se comunicar e conquistar quem está ao seu redor por meio da fala é uma das qualidades dos carismáticos. Por outro lado, existem casos de oratória prejudicada e a solução é simples: adicionando técnicas de comunicação e treino, conseguimos lapidar e fazer com que essa pessoa seja uma oradora.

Além de trazer benefícios bem significativos para a vida pessoal, um indivíduo que apresenta carisma e oratória provavelmente também vai se destacar na  vida profissional, conseguindo trilhar um caminho de sucesso na profissão que exerce e sendo assim reconhecido por seus superiores. Afinal, quem é carismático e conta com o domínio da comunicação, vai longe e assume papéis de liderança.

Em contrapartida, é preciso lembrar que tudo é um processo e que mesmo que o carisma ou a oratória não sejam habilidades inerentes em você, é sempre possível desenvolvê-las. Em nossos cursos, combinamos um processo constante de auto reflexão e boas práticas aliados à técnicas de performance. Dessa forma, trazemos à luz a melhor versão de cada um. É importante lembrar que a chave para a evolução individual é respeitar a essência de cada ser humano sem querer transformá-lo em outra pessoa.

Leia Também:  TSE cassa mandato do deputado Daltan Dallagnol

Fran Rorato é atriz, jornalista, especialista em comunicação e oratória

JORNAL DO VALE – Muito mais que um jornal, desde 1975 – www.jornaldovale.com

Siga nosso Instagram – @jornaldovale_ceres

Envie fotos, vídeos, denúncias e reclamações para a redação do JORNAL DO VALE, através do WhatsApp (62) 98504-9192

COMENTE ABAIXO:
Continue lendo

VALE SÃO PATRÍCIO

PLANTÃO POLICIAL

ACIDENTE

POLÍTICA

MAIS LIDAS DA SEMANA