Iniciei a leitura da Encíclica Magnifica Humanitas e, logo, parei e, diante da grandeza da Carta, decidi estudá-la minuciosamente. A Encíclica historia a Doutrina Social da Igreja desde Leão XIII, na Rerum Novarum de 1891, passeando pelo pensamento de cada Papa. Surpreendeu-me a citação de Bento XVI, tanto que tive que ler a “Caritas in veritate”.
A Magnifica Humanitas despertou-me diversas reflexões sobre o cristianismo primitivo, centro dos meus estudos nesse ano devido à pós-graduação em Patrística que estou fazendo. A começar pela preferência de Jesus a destinar sua boa mensagem aos pobres (Lc 4,18). Mensagem que será ampliada pelos sucessores e dirigida aos ricos avarentos, Basílio chamará a esses de ladrões e assassinos, pois se podem fazer o bem e não o fazem, tornam-se réus diante de Deus; e Crisóstomo os inquirirá: já doou a metade de seus bens aos pobres necessitados?
No meu artigo “Jesus cobrava 10%?” demonstrei que Jesus não cobrava, nem seus apóstolos, nem os sucessores até a Igreja de hoje. Os sucessores (ἀποστόλους, apostólus, emissários, enviados, inicialmente, eram chamados de “os Doze” (At 6,2), depois, recebeu o nome de Magistério-. O “dízimo” era e é voluntário, quanto pode e quer. A cifra de 10% é uma invenção protestante (e evangélica). Ao morrer, Cristo rompe com a Antiga Aliança (Mt 27,51) e instaura a Nova Aliança, ou seja, todos os mandamentos do Antigo Testamento foram cancelados e precisaram ser ratificados ou por Jesus ou pelo Magistério. E os 10% não foi confirmado!
E uma falha grave dos protestantes originais é que ao serem contra a venda de Indulgências, eles estão defendendo os interesses dos bilionários daquela época, uma vez que as indulgências eram oferecidas a quem podia pagar muito caro – embora a graça de Deus seja gratuita, fé sem obras é morta, conforme Tiago (2,17)-. Em seguida, os protestantes defendem os capitalistas e a cobrança de juros, contra o histórico dos cristãos e judeus. Obviamente, isso também não foi chancelado por Jesus.
O Magistério consolida-se quando criam a função de diácono para servir (diaconin, διακονεῖν) e o Magistério para ensinar, interpretar e preservar a revelação de forma autêntica, como registra Atos (6,7). Até Pedro teve que submeter sua teologia ao Magistério e convencer a todos (At 11,18): Deus também concedeu aos pagãos o arrependimento que conduz à vida!
E, já no início da Igreja, os Atos (15,1ss) nos mostram heresias pregadas por alguns e impondo um fardo insuportável às Igrejas oriundas dos pagãos e como Paulo e Barnabé apresentam-se ao Magistério, realizaram um concílio e aboliram práticas judaicas.
Junto com o Magistério, a Igreja consolida a Tradição e a Bíblia no quinto século, o período da Patrística, estabelecendo a liturgia e “os muitos outros sinais que Jesus fez na presença de seus discípulos e que não estão escritos neste livro” (Jo 20,30). E uma curiosidade: No archive.org, leio uma Bíblia Protestante (KJ) completa de 1.611 e descubro que só no século XIX retiraram os sete livros e que, hoje, enganam protestantes e evangélicos.
Mario Eugenio Saturno (fb. com/Mario.Eugenio.Saturno) é Tecnologista Sênior do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), pós-graduando em Patrística pela UniItalo e congregado mariano.
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