A Polícia Civil do Amapá prendeu em 2 de julho, em Trindade (GO), a estudante de Direito Ellen Lorraine Trindade Mateus, de 21 anos, apontada como integrante de um grupo criminoso suspeito de movimentar cerca de R$ 7 milhões em seis meses por meio de golpes e jogos de azar, entre eles o chamado “Tigrinho”. Segundo as investigações, mais de 300 pessoas foram vítimas de fraudes ao pagar contas de energia por meio de um site falso que imitava o portal da concessionária.
De acordo com o delegado responsável pelo caso no Amapá, Breno da Costa Esteves, os criminosos criaram empresas de fachada em Goiânia (GO) e Balneário Camboriú (SC) para funcionar como gateway de pagamento. Esse artifício permitia que transações fraudulentas não fossem imediatamente bloqueadas pelas instituições financeiras quando realizadas em nome de um mesmo CPF. “Eles usavam essas empresas para poder conseguir receber o valor”, explicou o delegado.
A segunda fase da Operação Boleto Fantasma cumpriu, ao todo, 7 mandados de prisão preventiva, 22 mandados de busca e apreensão e 20 medidas de sequestro de bens nos estados de Goiás e Santa Catarina. Em Goiás foram cumpridos 18 mandados de busca e apreensão e, em Balneário Camboriú, quatro. Dois suspeitos goianos — identificados como Marcos Vinicius Souza Takahashi e Mauro Mayer de Castro Oliveira — seguem foragidos.

Prisão e identificação
Conforme a polícia, Ellen foi detida na residência dos pais em Trindade e permanece presa na Penitenciária Feminina de Aparecida de Goiânia desde 2 de julho. O mandado de prisão preventiva contra a jovem foi expedido em 22 de junho pelo Tribunal de Justiça do Estado do Amapá. Segundo o delegado Breno Costa, Ellen foi identificada durante as investigações como uma das operadoras do esquema e será ouvida novamente a pedido da defesa.

A defesa da acusada, pelo advogado Jean Tavares, afirmou que sua cliente é “vítima de erro judicial”, alegando confusão com outra mulher de nome parecido. O advogado informou que o celular com senhas bancárias e conversas de WhatsApp foi entregue às autoridades e que já foram tomadas medidas jurídicas, como pedido de habeas corpus e relaxamento de prisão.
A Polícia Civil do Amapá rebateu a versão da defesa e, em nota, afirmou que a prisão foi cumprida contra a pessoa “corretamente identificada no procedimento investigativo, não havendo confusão de identidade ou equívoco no cumprimento da ordem judicial”. A corporação destacou que houve representação da autoridade policial, manifestação do Ministério Público e decisão judicial para a expedição dos mandados. O Ministério Público do Amapá informou que sua atuação se restringiu à análise técnica dos autos e emissão de manifestação jurídica sobre as medidas cautelares submetidas ao Judiciário.
Como funcionava o golpe
As investigações tiveram início no ano passado, após denúncias de vítimas, e apontam que as fraudes ocorreram entre 2024 e 2025. Segundo o delegado, o grupo criou páginas que reproduziam fielmente o site da concessionária Equatorial e usou anúncios patrocinados no Google para posicionar esses endereços fraudulentos acima do site oficial nos resultados de busca. Ao acessar a página falsa, consumidores inseriam dados pessoais, como CPF e data de nascimento, para emitir a segunda via da conta de energia.
Com as informações fornecidas pelas vítimas, os operadores emitiam boletos com aparência semelhante aos originais, mas cujo pagamento era direcionado a contas controladas pela organização criminosa. “Quando você entrava nesse site falso, ele é praticamente idêntico ao da Equatorial. A pessoa achava que estava no site verdadeiro. Só que esse pagamento não ia para a Equatorial, ia para a organização criminosa”, declarou o delegado. A maioria das vítimas só descobriu a fraude ao receber aviso de débito da concessionária ou ter o fornecimento de energia interrompido.
Além do golpe do boleto falso, as apurações indicam que o grupo atuava em outros estados e expandiu suas atividades para diferentes modalidades de crimes virtuais, incluindo fraudes ligadas a plataformas de apostas.
Bens apreendidos e bloqueios
Durante a operação, as autoridades retiraram de circulação mais de R$ 5 milhões em bens, veículos, valores e ativos vinculados à organização. Entre os itens apreendidos estão um Porsche, duas BMWs, dois caminhões, outros automóveis, uma motoaquática, equipamentos eletrônicos, documentos e dispositivos de armazenamento. Foram apreendidos também valores em espécie, joias, relógio de luxo e metais preciosos — totalizando ao menos R$ 311.335,00 em apreensões físicas (R$ 26.335,00 em espécie; cerca de R$ 150 mil em ouro; R$ 10 mil em prata; e um relógio Rolex avaliado em aproximadamente R$ 125 mil).
Equipamentos eletrônicos apreendidos — incluindo iPhones, MacBooks, computadores gamers, tablets, notebooks e uma carteira de hardware para criptoativos — foram avaliados em mais de R$ 200 mil. Todo o material será periciado pela equipe investigativa para mapear o fluxo financeiro, localizar novos bens e identificar eventuais beneficiários.
Denúncias e providências
A Operação Boleto Fantasma 2 é coordenada pela Delegacia de Repressão aos Crimes Cibernéticos (DR-CCIBER) da Polícia Civil do Amapá, com apoio do Laboratório de Operações Cibernéticas (Ciberlab/DIOPI/Senasp) do Ministério da Justiça e Segurança Pública, além das Polícias Civis de Goiás e Santa Catarina. Qualquer informação sobre os suspeitos pode ser repassada à polícia pelo número (96) 98436-3552.
Os investigados poderão responder por estelionato, organização criminosa e lavagem de dinheiro, conforme apuração em curso.
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