Ao longo de 43 anos chamar todos que o rodeiam de “caríssimo” ou “caríssima” foi o mais perto que chegou de uma manifestação de afeto. Impregnado em seu cotidiano, o termo também foi adotado pelos interlocutores para denominá-lo. Gilberto Ramos Ribeiro, professor da rede pública estadual, é um “sobrevivente” como se define. Abandonado recém-nascido viveu num orfanato e, sem família, se graduou em três cursos superiores. Acusado no final do ano passado pela Polícia Civil de exploração sexual de adolescentes, foi inocentado pelo Judiciário e desabafou num livro – O Preço de uma Mentira – o que passou no episódio. Na cadeia viu pela primeira vez a mulher que o gerou. Em uma reportagem do jornal O Popular de 2014 deu à funcionária pública Irene Ramos Ribeiro Martins a certeza de que se tratava do filho que foi obrigada a deixar para trás.
“Acolho o requerimento ministerial e defiro o pedido de arquivamento das peças de informação com relação ao indiciado Gilberto Ramos Ribeiro, observadas as formalidades legais”. A manifestação da juíza de Direito Adriana Caldas Santos, de Inhumas, aliviou o professor, mas não acalmou seu coração. “A justiça reconheceu o erro cometido contra mim. Fui humilhado e achincalhado”, diz ele ao se lembrar das acusações e de sua imagem exposta em veículos de comunicação.
Quando retomou as aulas no Colégio Estadual Doutor Negreiros, em Nerópolis, foi aplaudido e abraçado pela comunidade escolar. “Ele sempre foi um professor dedicado e todos gostavam dele. Quando deixou a prisão houve uma torcida grande para que saísse dessa fase ruim”, lembra Deuseni de Deus Miranda, na época diretora e hoje coordenadora geral da escola.
Atualmente Gilberto na Escola Estadual José Peixoto atualmente é professor de Ciências em Nova Veneza. “Quando tudo aconteceu eu estava em transição para cá porque moro em Nova Veneza. Foi muito difícil, enfrentei pais de alunos que queriam fazer abaixo-assinado para me tirar daqui”, conta.
Há dez anos diretora do colégio, Geovanna Stival ressalta que o docente não só apresentou todos os aparatos legais de sua inocência como ganhou o respeito de todos, até mesmo da subsecretaria de Educação. “Ele é meu parceirão. Um ótimo professor. Os alunos gostam dele por ser esforçado e respeitador”. A diretora convenceu os pais de alunos de que Gilberto era inocente da acusação.
O “professor”, como os companheiros de presídio o denominavam, continua obcecado em provar que tudo não passou de uma grande armação. “Eu pago um preço alto até hoje. O delegado não teve a intenção de resolver um problema dos menores, mas de usar uma pessoa pública, um professor, para gerar mídia. Ele sabia que eu não tinha cometido nenhum crime. Ele podia ter convicção sobre a participação dos outros dois, não da minha”.
O episódio o impulsionou a escrever um livro “como uma terapia”. Na obra, que está saindo do prelo, ele volta ao passado, fala da história de abandono, o que viveu no orfanato – lugar que considera “opressor” -, a passagem pelo seminário – opção que encontrou por não ter para onde ir – mas, principalmente sobre a prisão e o encontro com a mãe biológica.
Conhecendo a mãe
“Para mim foi um choque. Não é fácil descobrir dentro do presídio quem é sua mãe”. A mulher que o procurou dizendo ser sua mãe insistiu no encontro. Gilberto já tinha avisado à sua advogada que não queria visitas. Ele imaginou se tratar de alguém de Nova Veneza usando um subterfúgio para vê-lo. Com a insistência do agente prisional de que a visita era para ele, foi taxativo: “Não tenho mãe”. Voltou para a cela e apanhou dos presos por ter desprezado a mãe. Ele chegou a desmaiar com a surra.
A mulher que se identificava como sua mãe não se rendeu e voltou mais uma vez. No dia de visita, no meio de dezenas de colegas de cela, Gilberto a viu e novamente acreditou se tratar de um engano. Ela começou a chorar e ensaiou um abraço. O professor ficou estático.
A acusação
No dia 7 de novembro de 2017 a Polícia Civil de Inhumas desencadeou o que chamou de Operação Contemplação. Foram presos o estudante Cassio Henrique Azarias Souto e o professor Gilberto Ramos Ribeiro. O educador físico Kesllen Rodrigo foi alvo de busca e apreensão. O então delegado de Inhumas, Humberto Teófilo, disse na época que o trio aliciava os menores para a prática de prostituição. Uma filmagem em julho durante um torneio de futebol na cidade de Damolândia, próximo a Inhumas, comprovava, segundo o delegado, a denúncia dos crimes de exploração sexual de adolescentes e associação criminosa. As cenas foram distribuídas à imprensa. Cássio, Gilberto e Kesllen foram indiciados e liberados. Em janeiro deste ano, o Ministério Público pediu à Justiça o arquivamento da denúncia contra Gilberto. O pedido foi acatado em maio pela juíza Adriana Caldas Santos, que manteve a dos outros dois denunciados.
A denúncia levou a Secretaria de Estado de Educação, Cultura e Esporte (Seduce) a elaborar um procedimento administrativo contra o professor, que é concursado. Diante do arquivamento, Gilberto retomou as atividades como docente, mas não consegue esquecer o que vivenciou. “Eu já morei em Damolândia. Naquele dia visitei uma família amiga numa chácara. Quando voltava vi um movimento de jogadores e decidi parar porque sempre filmei futebol. Todos que me acompanham no Facebook sabem disso. O Cássio, que é muito conhecido em Damolândia, estava lá. Mas eu nunca tinha visto aqueles meninos. Quando me aproximei, eles disseram que estavam fazendo vaquinha para comprar refrigerante e me pediram dinheiro. Eu só tinha 7 reais. Concordei. Como ninguém quis pegar o dinheiro, joguei no meio deles. Jamais imaginaria que uma atitude dessas levaria o delegado a pensar mal de mim e fazer o que fez. Fui preso por ajudar. A única coisa que eu fiz foi doar 7 reais. Fui prejudicado por isso”.
Delegado questionado
No início deste ano Humberto Teófilo foi transferido compulsoriamente da delegacia da Polícia Civil de Inhumas depois de entrar em rota de colisão com políticos locais. Acusados de praticar fraudes na prefeitura, as autoridades públicas disseram que Teófilo fazia exposição de suas condutas em redes sociais, mesmo antes de provas e de condenação. Logo após o pedido de arquivamento da denúncia contra o professor Gilberto, o jornal O Popular conversou com o delegado sobre o assunto. Ele respondeu com um questionamento: “Você viu as filmagens?” Atualmente, ele está à frente do 22º DP, região Noroeste da capital.
Da Redação com O Popular












































