O uso problemático de uma substância costuma se tornar o aspecto mais visível do sofrimento de uma pessoa. Por isso, muitas vezes, toda a atenção se concentra em interromper o consumo, enquanto outros padrões — como impulsividade intensa, dificuldade persistente de concentração, desorganização e inquietação — permanecem sem investigação.
Em alguns adultos, esses sinais podem estar relacionados ao Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH), uma condição do neurodesenvolvimento que pode continuar produzindo prejuízos na vida adulta. Isso não significa que o TDAH cause automaticamente dependência, nem que toda pessoa que faz uso de álcool ou outras drogas tenha o transtorno. Significa que, quando as condições coexistem, compreender a história completa pode ser importante para planejar um cuidado mais adequado.
Uma meta-análise publicada em 2023, que reuniu 31 estudos e mais de 12 mil participantes, estimou que aproximadamente 21% das pessoas com transtorno por uso de substâncias também apresentavam TDAH. O próprio estudo ressalta que os resultados variam entre as pesquisas e que o percentual deve ser interpretado como uma estimativa, não como uma regra para todos os casos.
“Quando a pessoa chega ao cuidado em saúde mental por causa do uso de uma substância, é importante não olhar apenas para o comportamento mais visível. A investigação precisa considerar a história de vida, o controle de impulsos, a capacidade de planejar, a presença de prejuízos em diferentes áreas e a forma como a pessoa tenta lidar com o próprio sofrimento”, explica Caroline Dias Braga.
A relação entre TDAH e uso de substâncias é complexa. Em algumas situações, o consumo pode funcionar como uma tentativa inadequada de aliviar inquietação, ansiedade, desconforto emocional ou dificuldade de concentração. Essa possibilidade, porém, precisa ser avaliada individualmente e não deve ser usada para simplificar a história da pessoa ou justificar o uso da substância.
A comorbidade também pode tornar o cuidado mais desafiador. Revisões clínicas descrevem, em grupos estudados, associação com início mais precoce do uso, maior gravidade, uso de múltiplas substâncias, recaídas e dificuldades de adesão ao tratamento. Por isso, tratar somente uma parte do problema pode não ser suficiente para algumas pessoas.
“O objetivo não é encontrar um único diagnóstico que explique tudo, mas compreender quais fatores mantêm o sofrimento e quais habilidades precisam ser desenvolvidas. A psicoterapia pode ajudar no reconhecimento de gatilhos, na regulação emocional, no controle de impulsos, na prevenção de recaídas e na construção de alternativas mais saudáveis para lidar com a realidade”, afirma a especialista.
A busca por ajuda não precisa acontecer somente depois de uma crise. Repetição de prejuízos, dificuldade de interromper o consumo, sensação de perda de controle e sofrimento persistente são sinais de que uma avaliação profissional pode ser importante. O cuidado deve ser individualizado e, quando necessário, articulado com outros profissionais de saúde.
Você tem WhatsApp? Entre em um dos canais de comunicação do JORNAL DO VALE para receber, em primeira mão, nossas principais notícias e reportagens, clique aqui
JORNAL DO VALE – Muito mais que um jornal, desde 1975 – www.jornaldovale.com
Siga nosso Instagram – @jornaldovale_ceres
Envie fotos, vídeos, denúncias e reclamações para a redação do JORNAL DO VALE, através do WhatsApp (62) 98504-9192












































