Pesquisar
Close this search box.

Conexão Damasco-Ceres: ex-presidente da Síria se refugiou em Goiás e foi assassinado em vingança

publicidade


Conheça a pouco conhecida história de Mohamed Adib al-Shishakly, morto em solo goiano em uma vingança pelo que fez enquanto estava no poder em seu país natal

Ele nasceu em uma cidade síria com três milênios de história, que chegou a ser tomada por um faraó e esteve sob a influência de reis bíblicos, como Davi e Salomão. E ele morreu em uma localidade que na época contava com pouco mais de duas décadas de existência, no interior goiano que lutava para sair de seu isolamento. Mohamed Adib al-Shishakly, general que comandou as Forças Armadas Sírias e que se tornou presidente do país após um golpe de estado, é o dono dessa trajetória improvável. Nascido na lendária Hama, assassinado na recém-fundada Ceres.

Na chamada “capital do Vale do São Patrício”, as pessoas ainda se lembram desse nome que muitos acreditam – erroneamente – ser turco. Shishakly está impresso na memória dos moradores mais antigos. A guerra civil na Síria faz com que o país esteja frequentemente no noticiário, despertando lembranças do que aconteceu décadas atrás em Ceres. “Na época só se falou nisso”, recorda Ubiratan Longo, atual secretário de finanças do município e que era uma criança quando tudo aconteceu, mas que se recorda bem da vítima porque uma tia sua era vizinha de muro do general.

Saber que ele tinha alta patente, todos sabiam. Os moradores de Ceres, cidade que já atraíra para a antiga Colônia Agrícola Nacional de Goiás (CANG) uma expressiva colônia síria, também tinham ciência sobre quem era aquele senhor de pouco mais de 50 anos, proprietário de uma fazenda no norte do Estado – 1,2 mil hectares na localidade de Pequizeiro, hoje Tocantins – e uma gleba nas margens do Rio das Almas. Era público e notório que ele fora presidente da Síria e que viera para o Brasil após ser derrubado do poder. Isso, porém, não o impediu de se integrar bem à comunidade.

Leia Também:  Editora Clandestina torna acessíveis obras em formato digital

“Ele era uma pessoa muito agradável, culta, inteligente”, define o pecuarista Josef Bittar, que teve um contato próximo com o ex-presidente. “Ele morou na nossa casa aqui em Ceres por uns três meses logo que chegou. Minha família e a dele são da mesma cidade, Hama. Meu pai, Dib Bittar, havia sido seu ordenança no Exército, ainda na Síria. E eles se reencontraram aqui”, relembra. Coincidência que foi possível graças a uma série de acasos que traria o general a Goiás e selaria seu trágico destino, uma vez que ele acabou se instalando próximo ao seu inimigo.

Shishakly, apeado do cargo em uma contrarrevolução em reação ao golpe que havia desferido contra o presidente Fawzi Selu em 1951, saíra de seu país em 1954, refugiando-se no Iraque sob a proteção do então monarca Faisal II, seu amigo próximo. De lá, rumou para a Suíça e, após não se adaptar, procurou ficar na França com um de seus filhos, Morfaq, filho de seu primeiro casamento ainda na Síria. “Ele me contou que em Paris, andando pela cidade, viu uma edição especial da revista Manchete com uma reportagem especial sobre Brasília. Ficou maravilhado”, diz Josef Bittar.

Leia Também:  O bom e velho PF une a praticidade de uma comida bonita, balanceada e saborosa

O ex-presidente desembarcou no Rio de Janeiro em 1960 e logo rumou para o interior brasileiro. “Ele comprou essas terras em Goiás e um jipe DKW Vermag e veio para cá. Chegando em Anápolis, encontrou o cônsul sírio na cidade, Alim Helou, que lhe aconselhou a passar por Ceres, indicando meu pai”, relata Bittar. “Chovia muito e meu pai disse para ele ficar um tempo aqui aguardando o tempo melhorar. Nossa casa era muito grande e ele se hospedou lá. Daí decidiu se estabelecer e meu pai o ajudou a comprar uma casa aqui.”

Nos quatro anos que morou em Ceres, Adib Shishakly abriu um comércio de secos e molhados e fez amizades com outros comerciantes. Aprendeu rápido o idioma e andava pela cidade como um cidadão comum, longe das pompas que o cercavam na presidência da Síria. “Meu pai era amigo dele”, recorda Aparecida Maria Prado, cuja família morava bem em frente à residência dos Shishakly. “Eles saíam para olhar terras.” Esse contato estreito com a população fez com que sua morte gerasse uma comoção. E muitas, muitas versões sobre o que de fato aconteceu circularam.

MAG_03_CERES_FOTO_H_2COL__G_WEB
Guia de sepultamento na administração do cemitério de Ceres (Foto: Diomício Gomes/O Popular)
MAG_02_CERES_FOTO_H_2COL__G_WEB
Jazigo no local onde Shishakly foi sepultado e logo depois exumado (Foto: Diomício Gomes/O Popular)
MAG_04_CERES_FOTO_H_2COL__G_WEB
Casa que foi residência do ex-presidência, na Rua 7, Centro de Ceres (Foto: Diomício Gomes/O Popular)
MAG_05_CERES_FOTO_H_2COL__G_WEB
Local onde o ex-presidente sírio tinha loja de secos e molhados (Foto: Diomício Gomes/O Popular)
O Popular

COMENTE ABAIXO:

Compartilhe essa Notícia

publicidade

publicidade

publicidade

publicidade