A morte do fisiculturista e influenciador fitness Gabriel Ganley, 22 anos, reacendeu nas redes sociais debates sobre os limites da busca pelo corpo ideal e trouxe à tona preocupações de profissionais de saúde sobre práticas prejudiciais adotadas por quem tenta atingir padrões estéticos extremos. Especialistas alertam que a imagem nas redes muitas vezes oculta riscos reais à saúde.
Para a médica nutróloga Nathany Ribeiro, vivemos em uma era na qual os padrões estéticos são amplamente divulgados e, muitas vezes, inalcançáveis. “As redes sociais expõem diariamente padrões que criam a falsa impressão de que resultados extremos são normais, fáceis ou necessários”, diz Nathany. Ela observa que muitos pacientes procuram reproduzir o físico de influenciadores sem compreender os caminhos, sacrifícios e tratamentos — alguns ocultos ou perigosos — que podem estar por trás dessas aparências.
O cardiologista Lucas Nolêto de Oliveira concorda que a pressão estética tem levado pessoas a colocar a saúde em segundo plano. “Há um aumento no uso de treinos excessivos, dietas radicais e medicamentos sem orientação adequada para acelerar resultados”, aponta. Segundo ele, essas práticas podem prejudicar fígado, rins, coração e outros órgãos: “A aparência nem sempre caminha com a saúde. O corpo humano tem limites que devem ser respeitados.”
Redes sociais e comparações irreais
O alcance e a produção de conteúdo nas redes sociais ampliaram a exposição a imagens cuidadosamente editadas e produzidas, que alimentam comparações e sensação de inadequação, especialmente entre jovens. “As pessoas veem fotografias selecionadas e não conhecem os bastidores daquela imagem”, explica Lucas. Essa percepção distorcida contribui para aumento da ansiedade, queda da autoestima e surgimento de transtornos alimentares.
Outra falha comum, segundo os especialistas, é associar automaticamente músculos definidos a saúde plena. Há indivíduos com corpo atlético que apresentam hipertensão, alterações hormonais, colesterol elevado e problemas cardíacos; ao mesmo tempo, há pessoas fora do padrão estético com excelente saúde metabólica. “A saúde não pode ser medida apenas pela aparência”, reforça Nathany.
Riscos de transformações aceleradas
Especialistas destacam que transformações corporais dependem de tempo, adaptação e respeito às particularidades de cada organismo. Tentar acelerar processos naturais — por meio de regimes extremos, suplementação inadequada ou substâncias controladas — aumenta o risco de lesões, desequilíbrios hormonais, transtornos alimentares e complicações cardiovasculares.
Nathany enfatiza que a individualidade biológica impõe limites: “Não existe transformação física sem adaptação. Quando forçamos o organismo, a conta chega em forma de problemas de saúde.” Lucas complementa que a maior incidência de ansiedade e insatisfação corporal se dá entre os jovens, mais vulneráveis à necessidade de validação online.
Pilares de uma mudança saudável
Para os dois especialistas, a construção de um corpo mais saudável está baseada em pilares tradicionais: alimentação equilibrada, prática regular de exercícios, sono adequado e acompanhamento de profissionais qualificados — nutricionistas, médicos e educadores físicos. Soluções rápidas e atalhos, dizem, são perigosos e frequentemente ilusórios.
Nathany compartilha uma experiência pessoal que mudou sua visão sobre saúde: apesar de manter hábitos saudáveis, ela enfrentou uma infecção respiratória grave e foi diagnosticada com doenças autoimunes. “Se eu pudesse, faria tudo para ter a minha saúde de volta. Hoje sei ainda mais o quanto ela tem valor”, afirma. Para ela, a estética é legítima, mas não pode custar a saúde: “O que precisamos buscar é equilíbrio.”
A morte de jovens influenciadores que promovem estilos de vida extremos serve como alerta público. Especialistas pedem que seguidores, familiares e profissionais da área priorizem a informação responsável, a educação sobre riscos e a promoção de práticas que preservem a saúde física e mental, em vez de celebrar apenas a estética.
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