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Cuba recebeu 34 crianças de Goiânia para tratamento após o acidente com o césio-137

Cinco anos depois, ele embarcaria para Havana com as filhas Cristiane e Leidiane, então com 5 e 6 anos.
Foto: Arquivo - Governo de Goiás

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Em 1992, Cuba recebeu 34 crianças e 16 adultos de Goiânia para tratamento após a contaminação por césio-137, no episódio que marcou a história da capital goiana e do país. Entre os pacientes estava Donizeth Rodrigues, hoje com 62 anos, que anos antes havia passado a noite no ferro-velho de Ivo Alves Ferreira, no dia em que a família de Leide das Neves foi levada ao hospital, em 1987. Cinco anos depois, ele embarcaria para Havana com as filhas Cristiane e Leidiane, então com 5 e 6 anos.

A iniciativa de levar as vítimas para Cuba começou a ganhar forma em junho de 1992. A atriz Joana Fomm, que estrelou o filme Césio 137 — O Pesadelo de Goiânia, foi com a presidente da Associação das Vítimas do Césio 137, Tereza Nunes Fabiano, até a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (Faperj) pedir apoio. Na ocasião, souberam que o pediatra cubano Carlos Dotrez Martinez, então diretor-geral de Saúde do programa cubano de atendimento a crianças vítimas de Chernobyl, viria ao Brasil para participar da ECO-92, no Rio de Janeiro.

Dotrez explicou que a autorização para a viagem dependeria do próprio Fidel Castro, que também viria ao Rio para a conferência. A partir daí, houve articulação com autoridades cubanas, com o embaixador Jorge Bolaños, além de contatos com Leonel Brizola, Fernando Collor e Iris Rezende. O acordo acabou sendo assinado por Fidel, pela Academia de Ciência de Cuba, pela Associação das Vítimas do Césio 137 e pelos governadores de Goiás e do Rio de Janeiro.

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Cuba financiou o tratamento e as passagens dos profissionais, enquanto o então governador de São Paulo, Luiz Antônio Fleury Filho, custeou as passagens das vítimas. A equipe cubana selecionou 34 crianças e 16 adultos, todos pais ou mães dos menores. Também integraram a missão os pediatras Oscar Gandrio Zequeira e Marlen Alvarez Comernate, o clínico José de la Caridad Piñon Vega, o biofísico Oniar Garcia Lima e três especialistas brasileiros.

Segundo registros da época, Dotrez minimizou o fato de o atendimento ocorrer cinco anos após o acidente. Para ele, isso não representava atraso, já que em muitos casos os efeitos da contaminação só aparecem com o tempo.

As vítimas viajaram para Cuba em agosto de 1992 e ficaram hospedadas em chalés no Acampamento de Pioneiros José Martí. Carla Moraes Rodrigues, que tinha 12 anos na época, lembra da comida, dos passeios e da convivência com outras crianças, inclusive vítimas de Chernobyl. Ela conta que, ao contrário do preconceito vivido em Goiânia, em Cuba encontrou acolhimento.

A rotina incluía exames, consultas e tratamentos variados. Foram feitos cerca de 400 exames na Cidade dos Pioneiros, incluindo exames de medula em todas as crianças e em dois adultos, além de avaliações hematológicas, radiológicas e gerais. O grupo também passou por tratamentos clínicos, odontológicos, pequenas cirurgias, vacinação, vermifugação e apoio psicológico.

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No retorno ao Brasil, Dotrez entregou relatório às autoridades com os resultados do tratamento. Segundo publicação da época, 40% das vítimas examinadas apresentaram alterações imunobiológicas e hematológicas. Algumas tinham problemas genéticos que poderiam ou não evoluir para doenças graves, como leucemia e outros tipos de câncer, além de sequelas psicológicas.

Hoje, Donizeth afirma acreditar que a experiência em Cuba ajudou a salvar sua vida. Ele relata ter enfrentado diabetes, problemas na tireoide, hérnia, perda de audição, oito infartos e um AVC. Carla, por sua vez, diz que teve câncer no colo do útero, mas que os médicos não relacionaram a doença ao césio-137.

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