Em meio ao crescimento dos casos de violência contra a mulher em todo o Brasil, dados do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania mostram que, em Goiás, o número de violações registradas passou de 8.171 em 2025 para 11.208 em 2026, um aumento de 37,17% no período entre janeiro e julho. Apesar da alta expressiva, apenas 1.215 protocolos de denúncia foram formalizados neste ano. O cenário evidencia um amplo descompasso entre a quantidade de violações e as denúncias efetivamente registradas, revelando um problema estrutural e psicológico que ainda impede muitas mulheres de buscar ajuda.
De violência física e doméstica a abusos psicológicos, morais e patrimoniais, a realidade imposta a milhares de mulheres ainda é marcada pela dor e pelo silêncio. E, para a advogada e professora do curso de Direito da Faculdade Anhanguera de Goiânia, Taynara Abreu, é exatamente nesse silêncio que a violência encontra terreno fértil para continuar. “A resistência em denunciar a violência é resultado de um conjunto de fatores, entre eles a dependência emocional e financeira, o receio de represálias, o sentimento de vergonha e, em muitos casos, o desconhecimento dos próprios direitos”, afirma.
A docente destaca que, ao longo de quase duas décadas, a Lei Maria da Penha se tornou um marco na proteção às mulheres, estabelecendo medidas protetivas, criminalização do agressor, atendimento prioritário e até direito a matrícula em escolas para vítimas e seus filhos. “Foram grandes conquistas, mas é preciso reconhecer que a eficácia da lei depende de sua aplicação, fiscalização e principalmente da confiança das mulheres em usá-la”, reforça Andrea.
O desafio, segundo ela, vai além do campo jurídico. Envolve educação, autonomia econômica e políticas públicas de prevenção e acolhimento. “O enfrentamento da violência exige um trabalho permanente e articulado. É fundamental que as mulheres conheçam os canais de apoio, sintam-se seguras para denunciar e encontrem uma rede preparada para acolhê-las com respeito e garantir a proteção de seus direitos”, afirma.
Ela destaca que, para mudar esse cenário, é essencial ampliar o debate desde cedo. “Educar para a igualdade de gênero nas escolas, nas famílias e nas empresas é parte do caminho. Além disso, oferecer oportunidades para que as mulheres tenham independência financeira pode ser decisivo para sair de um relacionamento abusivo”, pontua.
A docente também reforça a importância de canais como o 180 (Central de Atendimento à Mulher) e o 190 (Polícia Militar), que funcionam como porta de entrada para o rompimento do ciclo de violência. “O silêncio não protege, ele perpetua. A mulher precisa ser acolhida, não julgada. A denúncia pode ser o primeiro passo para salvar uma vida”, destaca.
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