Estamos em pleno mês de Julho e, para muitas crianças e adolescentes, isso significa liberdade, brincadeiras e uma pausa na rotina escolar. Para muitos pais, especialmente para muitas mães, o periodo pode representar algo bem diferente: uma corrida contra o relógio para conciliar trabalho, cuidados, entretenimento, organização da casa e presença emocional.
Existe uma expectativa social de que as férias sejam um tempo de felicidade plena. As redes sociais reforçam imagens de passeios, viagens e experiências memoraveis. Mas a realidade da maioria das famílias está longe desse ideal.
Enquanto a prole está de férias, a maior parte dos adultos continua trabalhando, mantendo compromissos e administrando as demandas da vida cotidiana.
É nesse ponto que surge uma tensão silenciosa.
Quem cuida das crianças durante esse período?
Quem reorganiza horários? Quem pesquisa atividades, prepara refeições, acompanha deslocamentos e administra o inevitável aumento das demandas domésticas?
Ainda hoje, essa responsabilidade recai de forma desproporcional sobre as mulheres. Mesmo trabalhando fora e contribuindo financeiramente para o sustento da família, muitas mães assumem a chamada carga mental das férias: pensar, planejar, organizar e garantir que tudo funcione. Não raro, elas chegam ao fim do mês mais cansadas do que começaram.
Na clínica, é comum ouvir relatos de culpa. Culpa por não poder tirar férias junto com os filhos.
Culpa por recorrer às telas em alguns momentos.
Culpa por nao proporcionar passeios ou atividades que pareçam suficientes. Culpa, inclusive, por desejar alguns momentos de silêncio.
Mas talvez seja hora de fazermos uma pergunta diferente. O problema está nas familias ou na forma como a sociedade se organiza em torno delas?
As ferias escolares costumam evidenciar uma questão estrutural: ainda esperamos que o cuidado com os filhos seja resolvido quase exclusivamente dentro de casa. Pouco se discute sobre politicas de apoio às familias, exibilização de jornadas, espaços comunitários de convivência, atividades acessíveis ou redes de suporte que possam compartilhar essa responsabilidade.
Também é importante refletir sobre a ideia de que férias bem-sucedidas dependem de programação constante. Crianças não precisam de entretenimento ininterrupto. Precisam de vínculo, previsibilidade, segurança e oportunidades para brincar, descansar e até experimentar o ócio. O tempo livre faz parte do desenvolvimento saudável.
Quando reduzimos expectativas irreais, abrimos espaço para experiências mais autênticas. Uma tarde sem pressa, uma conversa durante o almoço, um jogo em família ou uma caminhada no fim do dia podem produzir memórias tão significativas quanto atividades cuidadosamente planejadas.
Marilene Martins, Psicóloga e diretora do Habiens Instituto de Psicologia
Você tem WhatsApp? Entre em um dos canais de comunicação do JORNAL DO VALE para receber, em primeira mão, nossas principais notícias e reportagens, clique aqui
JORNAL DO VALE – Muito mais que um jornal, desde 1975 – www.jornaldovale.com
Siga nosso Instagram – @jornaldovale_ceres
Envie fotos, vídeos, denúncias e reclamações para a redação do JORNAL DO VALE, através do WhatsApp (62) 98504-9192












































