Quando os médicos na Santa Casa de Misericórdia de Passos decretaram que não havia mais possibilidade de reversão, a família de Gleida Danese, então uma menina de nove anos, recusou-se a aceitar o veredito final. Nas noites em que a unidade de terapia intensiva enfrentou até falta de energia elétrica, a avó de Gleida, Maria Aparecida Amparado Danese, rezava na capela do Educandário Senhor Bom Jesus dos Passos e pedia a intercessão do então Venerável Padre Aníbal Maria Di Francia. Hoje, aos 50 anos, enfermeira e residente de Passos, Gleida diz sentir-se “um milagre vivo” — expressão que resume um episódio que ligou a cidade mineira ao Vaticano e foi determinante para a canonização do religioso italiano.
O caso remonta a julho de 1985, quando Gleida foi acometida pela Síndrome de Guillain-Barré, uma doença autoimune que ataca os nervos periféricos e pode causar fraqueza progressiva, paradas respiratórias e risco de morte. Internada em estado crítico, ela sofreu cinco paradas cardiorrespiratórias, ficou em coma por mais de um mês, passou por traqueostomia e submeteu-se a extenso tratamento intensivo e fisioterapia. Familiares chegaram a ser informados por médicos brasileiros e estrangeiros que as chances de recuperação eram mínimas.
Segundo depoimentos reunidos posteriormente no processo canônico, a melhora de Gleida ocorreu de forma súbita durante orações na capela do Educandário, onde a avó liderava pedidos pela cura. Naquele momento, relatos médicos registraram a recuperação dos sinais vitais sem explicação compatível com o quadro clínico anterior — elemento que, anos depois, seria reconhecido pela Igreja como o primeiro milagre oficialmente atribuído a Padre Aníbal no Brasil e peça-chave para seu caminho à santidade.
“Eu hoje sou curada de Guillain-Barré sem nenhuma sequela, então eu sou um milagre viva de Santo Aníbal”, afirma Gleida. A convicção pessoal, construída desde a infância pela intensa vivência religiosa com a avó, ganhou dimensão pública quando, já adulta, tomou conhecimento de que sua história integrara o dossiê canônico. “Meu entendimento veio quando o processo começou a ser montado. Foram cerca de 2.000 páginas”, recorda. O reitor do Santuário Santo Aníbal, padre Silas de Oliveira, complementa que mais de 30 testemunhas foram ouvidas durante a investigação realizada pela Igreja.
A trajetória de Aníbal Maria Di Francia
Nascido em 1851, em Messina, na Itália, Aníbal Maria Di Francia dedicou sua vida ao serviço social e à promoção das vocações. Fundador dos Orfanatos Antonianos (1882), da congregação das Filhas do Divino Zelo (1887) e dos Rogacionistas do Coração de Jesus (1897), seu trabalho combinou assistência a pobres, formação de crianças e intensa atividade pastoral. Faleceu em 1º de junho de 1927; foi proclamado Bem-aventurado por João Paulo II em 1990 e canonizado em 2004, após reconhecimento de milagres atribuídos à sua intercessão.
Ligação entre local e global
Para Passos, a inclusão do caso de Gleida no processo canônico criou um vínculo simbólico com o Vaticano e ressalta a relevância de manifestações de fé locais nos processos de reconhecimento de santidade. A cidade, situada no Sul de Minas, agora se prepara para celebrar o centenário da morte de Santo Aníbal, momento que, segundo líderes religiosos locais, reforça tradições devocionais e atrai peregrinos interessados em testemunhos de cura e devoção.
Profissão e memória
Atualmente enfermeira, Gleida relaciona sua escolha profissional à experiência vivida na infância e à gratidão pela recuperação. “Não sei exatamente o que sentia aos nove anos, mas sei que minha fé foi formada desde cedo”, comenta, lembrando a presença constante da avó. A experiência hospitalar — os focos de luz do centro cirúrgico, os corredores, o jardim visto da janela — permanece vívida em sua memória e constitui parte das narrativas que foram submetidas à avaliação canônica.
Aspectos médicos e investigativos
Especialistas em neurologia atestam que a Síndrome de Guillain-Barré apresenta um espectro de evolução amplo e que recuperação completa, embora possível, pode ser lenta e depender de tratamentos intensivos e reabilitação. Nos processos de reconhecimento de milagres, a Igreja Católica costuma solicitar avaliações médicas detalhadas e pareceres de especialistas independentes para determinar se um evento tem explicação científica plausível. No caso de Gleida, os documentos do processo apontaram a ausência de justificativa médica suficiente para a recuperação na forma em que ocorreu.
Preparativos para o centenário
À medida que Passos se organiza para as celebrações do centenário da morte de Santo Aníbal, a história de Gleida toma lugar de destaque nas programações religiosas e culturais. Para a comunidade local, o episódio reforça laços de fé e memória; para a Igreja, exemplifica como relatos de vida e cura podem ecoar em processos canônicos com repercussão internacional.
“Sou grata todos os dias”, encerra Gleida. Entre lembranças do passado e a rotina de quem agora cuida de outras vidas, sua narrativa segue sendo referência na cidade que testemunhou, há décadas, um episódio que acabou chegando ao altar da Igreja.
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